Enquanto Niele buscava forças para seguir adiante, do outro lado da cidade, seu marido almoçava distraído quando o telefone do escritório de advocacia tocou. A secretária comunicou, em tom formal, que Niele dera entrada no pedido de divórcio.
Ele franziu o cenho, tomou um gole do suco e soltou um riso curto, carregado de desdém.
— Ela realmente vai fazer isso? — murmurou, a voz endurecida. — Que audácia.
Sem demora, pegou o celular e discou para o hospital, o número dela gravado na memória. A chamada caiu diversas vezes, até que Niele atendeu no meio da correria do plantão.
— Niele — a voz dele saiu áspera, quase um rosnado —, o que você pensa que está fazendo?
Ela tentou manter a calma, mas o coração disparava. Do outro lado, ele despejava ameaças veladas, misturando rancor e arrogância.
— Não pense que vou deixar barato. Estou indo aí para acertar as coisas pessoalmente.
E desligou. O silêncio após a chamada pesou mais do que o barulho das máquinas ao redor. Niele respirou fundo, tentando retomar o foco. Ainda restavam dezoito horas de trabalho, mas cada minuto foi vivido sob a sombra de que ele poderia aparecer a qualquer momento.
***
Na manhã seguinte, o hospital parecia envolto por um ar mais denso, como se algo invisível estivesse prestes a acontecer. O plantão seguia seu curso, até que Niele, ao sair do refeitório após um rápido lanche — já se aproximava das sete e meia da manhã, hora de encerrar o turno —, notou uma silhueta parada junto à porta principal.
Seu coração gelou. Era ele.
Usava a mesma camisa amarrotada de sempre, e nos olhos trazia aquele brilho perigoso que ela conhecia bem. Ele atravessou o saguão com passos firmes, ignorando o movimento em volta.
— Acha mesmo que pode me jogar fora como lixo? — cuspiu as palavras, aproximando-se.
— Saia daqui, agora — respondeu Niele, recuando instintivamente.
Num gesto brusco, ele agarrou-lhe o braço. O reflexo de anos de medo fez Niele encolher, mas, desta vez, não estava sozinha. Dois seguranças do hospital intervieram, firmes, segurando-o pelos ombros.
Ele esperneou, gritando ofensas, ameaçando, mas a força dele não resistiu à intervenção. Minutos depois, a polícia chegou. O estalo metálico das algemas se fechando em seus pulsos ecoou pelo saguão como um sopro de justiça — para Niele, soou como a quebra de uma corrente invisível que a prendia há anos.
Na mesma tarde, o delegado plantonista expediu medida protetiva: ele deveria manter-se a pelo menos dois quilômetros de distância dela, sob pena de prisão imediata. Ficou também registrado nos autos que a casa onde moravam era de propriedade exclusiva de Niele, adquirida antes do casamento — portanto, ele não tinha qualquer direito sobre o imóvel.
Ao receber a cópia da decisão, Niele experimentou algo que há muito não sentia: segurança. Pela primeira vez em anos, podia voltar para casa sem o peso constante do medo.
Ainda assim, ao deitar-se naquela noite, compreendeu que a liberdade não viria apenas de papéis assinados. Era uma conquista diária, um exercício de firmeza e coragem. O medo ainda latejava em seu íntimo, mas, agora, ao lado dele, ardia também uma chama nova. E Niele prometeu a si mesma que manteria essa fagulha acesa — custasse o que custasse.
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Não deixem de conferir o terceiro capítulo da série de contos NO DIVÃ!
Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.
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