Ao chegar em casa, um pensamento veio à mente de Niele:
“O que é a vida, senão uma fagulha de esperança que precisamos reavivar todos os dias?”
Sentou-se no sofá e, aos poucos, as lembranças a invadiram. Recordava-se dos anos presos a um relacionamento que não lhe trazia alegria. Seu marido, Agnaldo, não a agredia fisicamente, mas suas palavras eram cruéis, cortantes como lâminas. Somava-se a isso a ausência de afeto: carícias rarefeitas, sexo sem paixão, quase por obrigação. Um abismo crescente os separava.
Niele já não suportava aquela existência sufocante. Por anos calou-se, tentando sustentar um casamento sem futuro, movida por medo e resignação.
Dessa união nasceu Débora, a filha amada. Aos doze anos, porém, a menina decidiu ir morar com a tia na França. Não suportava mais assistir à mãe se apagando dia após dia. Quando partiu, com uma pequena mala nas mãos e os olhos marejados, Niele sentiu como se lhe arrancassem um pedaço da alma. O silêncio que tomou conta da casa não era paz, era ausência.
À noite, deitada ao lado de um homem que já não reconhecia, encarou o teto escuro e percebeu que a fagulha de esperança tantas vezes repetida para si mesma estava quase apagada. Talvez já fosse apenas brasa fria.
Mas algo dentro dela resistia. Uma voz fraca, abafada pelos anos de dor, sussurrou:
“Ou você se levanta agora, ou vai morrer por dentro.”
Na manhã seguinte, diante do espelho do banheiro, encontrou olhos inchados, rosto abatido… mas, no fundo das pupilas, ainda brilhava uma centelha. E ela decidiu que, por menor que fosse, iria protegê-la.
Agnaldo saiu cedo, como de costume, sem dirigir-lhe uma palavra. O som da porta batendo ecoou na casa vazia. Niele caminhou até o quarto de Débora e sentou-se à beira da cama, acariciando o travesseiro. Mesmo após cinco anos, ainda guardava o cheiro da filha. Lágrimas escorreram, mas desta vez vinham acompanhadas de uma determinação tímida, quase imperceptível, mas real.
Pegou um caderno velho na escrivaninha e escreveu com mãos trêmulas:
“Não posso mais viver assim. Hoje é o começo.”
Era apenas uma frase, mas carregava mais peso do que todas as promessas feitas ao longo da vida.
***
Naquela manhã, saiu de casa com o coração pesado, mas a determinação firme. Decidida, levava consigo a certeza de que aquele dia mudaria tudo — pediria o divórcio.
No hospital, o plantão arrastava-se em ritmo exaustivo. Corredores frenéticos, vozes apressadas, o aroma pungente de antisséptico. Mesmo assim, nada podia abalar a chama que ardia dentro dela. Cada minuto a aproximava do instante em que, finalmente, tomaria posse da própria vida.
Quando o relógio marcou o fim do turno, respirou fundo, juntou seus pertences e saiu. A cidade parecia estranhamente silenciosa, como se o mundo inteiro aguardasse com ela aquele momento.
Caminhou até o escritório de advocacia que havia pesquisado dias antes. Ao entrar, foi recebida pela secretária e logo encaminhada ao advogado.
Sentada diante dele, sentiu um misto de alívio e nervosismo. Expôs sua situação com clareza, a voz firme apesar do nó na garganta. O advogado ouviu atentamente, explicou os documentos, audiências, prazos.
— Pode ficar tranquila — disse ele. — Vou cuidar para que tudo seja o mais sereno possível.
Niele assentiu. Pela primeira vez, em muito tempo, sentiu que estava, enfim, tomando as rédeas da própria vida.
À noite, em casa, comportou-se como de costume. Fez o jantar, arrumou a mesa, deitou-se ao lado do marido. Mas dentro dela, algo havia mudado para sempre.
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Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.
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