FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


 

 

O dia amanheceu cinzento, como se o céu partilhasse da dor de Niele. Logo cedo, ela seguiu para o hospital. Ao chegar, encontrou o corpo da mãe sobre a pedra, já preparado, sereno, como quem enfim descansara de uma longa jornada, à espera da funerária que traria o caixão para transportá-la ao cemitério Vila Alpina, onde seria velada. Tocou-lhe a mão fria e sentiu um arrepio: a ausência era real, definitiva.

 

O velório aconteceu no cemitério Vila Alpina. Familiares, amigos e alguns colegas de Niele foram chegando aos poucos, trazendo coroas de flores, abraços tímidos e palavras de consolo. Mas, para ela, tudo soava distante. O mundo parecia desfocado, como se apenas a imagem da mãe, imóvel no caixão, existisse de fato.

 

Sentada próxima, Niele lembrava-se da noite anterior. Cada palavra dita por Giulia voltava como um sussurro: “Viver é escolher… Pior que errar é não viver.” Essas frases martelavam em sua mente, como uma herança invisível que a mãe lhe deixara.

 

Seu marido, Agnaldo, conversava com colegas e familiares no corredor. Tudo o que Niele queria era que ele estivesse ali, a seu lado, apoiando-a naquele momento de dor. Mas já não havia intimidade, muito menos gestos de carinho. Restavam apenas trocas de farpas, nada mais.

 

Em certo momento, enquanto olhava para o rosto sereno de Giulia, sentiu um nó na garganta. Percebeu que a mãe partira em paz porque tivera coragem de viver, mesmo nos erros, mesmo nos riscos. E ela, Niele, estava ali — viva, mas presa a um casamento que já não lhe trazia alegria, sem a coragem de decidir o próprio caminho.

 

As lágrimas escorreram discretas. Não eram apenas pela morte da mãe, mas também pela consciência de que a vida lhe cobraria escolhas.

 

Quando o caixão foi levado para o sepultamento, Niele caminhou atrás, firme, ainda que o corpo lhe pesasse. Cada passo era uma despedida, mas também um chamado para algo novo.

 

No silêncio do cemitério, diante da sepultura, fez uma promessa em pensamento:

 

“Mãe, eu vou ouvir o que me disse. Vou encontrar coragem. Não sei ainda como, mas vou viver de verdade.”

 

 

***

 

Passados alguns dias do sepultamento, o luto ainda pesava sobre Niele como uma sombra constante. O hospital, a rotina, os colegas — tudo lhe parecia abafado. Sentia a necessidade de se afastar. Pediu alguns dias de licença e seguiu sozinha para a casa de praia da família.

 

Ao chegar, o silêncio do lugar a envolveu. O mar se estendia diante dela, infinito, quebrando as ondas na areia como se trouxesse e levasse segredos. Ali, sem a presença de ninguém, Niele permitiu-se chorar, gritar, silenciar.

 

Nas madrugadas, deitada na rede da varanda, ouvia o barulho do vento misturado à lembrança das palavras da mãe: “Viver é escolher… Pior que errar é não viver.” Essas frases ecoavam como um chamado, uma ordem doce e dura ao mesmo tempo.

 

Niele sabia o que precisava fazer. A morte da mãe lhe mostrara que o tempo não espera.

 

Dias depois, voltou para casa — determinada a dar um basta em seu casamento.

 

 

 

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Não deixem de conferir o primeiro capítulo da série de contos NO DIVÃ!

 

Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la. 

 

Venham comigo nessa jornada — a leitura já está disponível!

 

 

 

 

 

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 27/09/2025
Alterado em 27/09/2025
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