FelipeFFalcão

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Os dias de outrora

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Eu voltava do trabalho, preso no trânsito engarrafado de São Paulo, aquele cenário costumeiro de buzinas e faróis vermelhos. No rádio, de repente, soou uma canção: “Meu Mel”, na voz de Marquinhos, lá de 1987.

 

Assim que a melodia tomou conta do carro, fui invadido por um sopro de nostalgia. Era como se, por um instante, a rotina sufocante da cidade desse lugar ao sonho de outrora. Aquela música me puxava pelas memórias, conduzindo-me de volta ao ano de 1987, tempo de descobertas, paixões e inocências que hoje só sobrevivem guardadas na alma.

 

Sem o perceber, me peguei sorrindo.

 

Havia maldade, sim, nos dias de outrora, mas até ela parecia ter um quê de inocência.

 

Recordo-me dos meus treze, talvez catorze anos. Às vezes rio sozinho dessas lembranças, noutras sinto um aperto no peito, como se pudesse pedir ao tempo uma segunda chance.

 

Sempre fui tímido, mas não se engane: carregava comigo certa travessura disfarçada.

 

Foi nesse tempo que deixamos a vida da roça e seguimos para uma cidadezinha chamada Virgolândia. Pequena, com seus 5.800 habitantes, mas grande o bastante para caber todos os meus sonhos de adolescente.

 

Chegamos ao entardecer. Enquanto o caminhão da mudança era descarregado, minha mãe decidiu ir ao centro comprar pão. Fui com ela, naturalmente. Ao dobrarmos a esquina da rua principal, encontrou algumas amigas e logo tratou de me exibir:

 

— Este é meu filho mais velho.

 

Olhares curiosos pousaram sobre mim, mas apenas uma jovem, de uns quinze anos, ousou atravessar o silêncio. Fitou-me firme, sorriu e disse:

 

— Seu filho é lindo. Um dia ainda me caso com ele.

 

A mãe ralhou com ela, mas aquelas palavras ficaram ecoando em mim como sinos de igreja chamando para a missa. E que missa! A moça era um espetáculo: pernas firmes, lábios cheios, olhos castanhos-claros cor de mel de laranjeira. Vestia uma saia que fazia qualquer rapaz ficar vesgo, tentando olhar sem parecer que olhava.

 

O tempo seguiu seu curso, e eu, feito aprendiz da vida, alimentava a esperança de conquistá-la. Mas havia um obstáculo: o namorado dela. Um cabra de dedo mole, desses que se acham donos do mundo. Andava com um revólver 38 na cintura, cheio até o cano, e bastava umas cachaças para começar a atirar pro alto, desafiando quem tivesse coragem de lhe contrariar.

 

Mesmo assim, eu acreditava no ditado: “quem espera sempre alcança”.

 

Eis que um dia, ao chegar à casa de minha bisavó, lá estava ela — sentada numa tora de madeira, os olhos marejados. Perguntei o motivo do pranto e ela, entre soluços, confessou: terminara com o namorado.

 

Era a minha deixa! Convidei-a para ir comigo à quermesse naquela noite. E ela sorriu, dizendo sim.

 

Descemos juntos a rua rumo à festa, como se o destino enfim tivesse se rendido a nós dois. Tudo ia bem, até que, ao pedir refrescos para matar a sede dela, deixei-a sozinha por um instante. Quando voltei, encontrei a cena: o maldito ex-namorado segurava-a pelo braço. E, como num feitiço sem chance de defesa, ela foi embora com ele.

 

Nunca mais falei com ela.

 

Ah, se eu pudesse voltar no tempo, provar do mel daquela boca, há!… não deixaria escapar, aquelas pernas, digo, aquela moça.

 

 

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Obs.: Não deixem de conferir o primeiro capítulo da série de contos NO DIVÃ!

 

Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.

 

 Venham comigo nessa jornada — a leitura já está disponível!

 

 

 

 

 

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 25/09/2025
Alterado em 26/09/2025
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