FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

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Giulia estava no leito do hospital; seu estado de saúde era terminal. Niele, sua filha, enfermeira no mesmo hospital, permanecia ao seu lado sempre que tinha folga. Naquela manhã, ao terminar o plantão, decidira ficar com a mãe. Sentou-se na poltrona junto ao leito e, exausta, adormeceu com o rosto apoiado nas mãos sobre o encosto.

 

Giulia despertou e encontrou a filha assim.

 

— Filha — sussurrou com ternura —, vai para casa.

 

Niele abriu os olhos, sonolenta.

 

— Oi, mãe… desculpe. A senhora estava dormindo, não quis acordá-la… acabei pegando no sono.

 

Um sorriso leve aflorou nos lábios de Giulia. Por instantes, parecia que a fragilidade da doença cedia lugar à mulher forte que sempre fora.

 

— Engraçado, filha… quando estamos à beira da morte, a memória insiste em nos levar para longe. Ficamos nostálgicos… Eu daria tudo para voltar a 1968.

 

— Por que 1968, mãe? — perguntou Niele, curiosa.

 

Giulia silenciou por um momento, respirou fundo e, como quem abre uma gaveta antiga, trouxe à tona uma lembrança guardada.

 

— Foi em 1968… — começou, a voz embargada pelo tempo. — Genário, seu pai, estava no serviço da Vale, longe de casa. Eu já não suportava a saudade, nem o fogo que me consumia por dentro. Criei coragem, deixei os meninos com a vizinha e fui atrás dele, até o acampamento.

 

Quando cheguei, mandei avisar da minha presença, pois fui informada de que ele estava distante, fazendo a manutenção de uma máquina de perfuração — era mecânico da empresa. A resposta foi dura: “O que você veio fazer aqui? Esse lugar não é para mulher, só tem homem. Estou consertando uma máquina, não posso sair. Volte pra casa.”

 

Mas era tarde demais para voltar. Deram-me um quarto no alojamento — simples, cama estreita, paredes brancas. Ali, senti os olhares. Eram homens afastados de suas casas havia meses. Eu sabia o que desejavam… e, no íntimo, também o desejava. Queria ser vista, ser tocada, sentir-me viva outra vez.

 

Naquela noite, deixei-me levar pelo desejo. Um após outro, homens que também carregavam saudade encontraram em mim o mesmo consolo que eu buscava neles. Não houve força, não houve violência. Foi escolha minha.

 

Quando a madrugada clareou, eu estava exausta, mas, estranhamente, em paz. Às quatro horas, o encarregado me levou de carro até a cidade mais próxima; de lá, peguei o ônibus de volta para casa. Voltei com um peso no peito, sim… mas também com a sensação de ter apagado, por uma noite, a solidão de tantos anos.

 

Giulia fechou os olhos por um instante, como se as lembranças ainda ecoassem dentro dela. O silêncio parecia preencher todo o quarto, só interrompido pelo sopro compassado dos aparelhos e pelo canto distante de um passarinho na janela.

 

Niele escutava cada palavra sem ousar interromper. Mas em seu olhar havia inquietação — e Giulia percebeu.

 

— Filha… — murmurou, a voz fraca, mas firme. — Seus olhos falam. Você me ouviu com espanto, sim, mas também com um quê de inveja. Estou enganada?

 

Niele hesitou, abaixou o rosto e, após um instante de silêncio, confessou:

 

— Talvez a senhora esteja certa, mãe… Eu admiro a sua coragem. Sinto que nunca fiz nada só por mim. Minha vida sempre foi seguir regras, cuidar dos outros, ser correta em tudo. Às vezes me pergunto o que vivi de verdade.

 

As lágrimas vieram, contidas, mas intensas.

 

— Estou com problemas no meu casamento… — disse, a voz trêmula. — Faz tempo que não me sinto feliz. Ele é um bom homem, não me trata mal… mas eu sinto um vazio, mãe. Um vazio que me corrói. Já pensei muitas vezes em me separar, mas não tenho coragem. Tenho medo do julgamento, medo de ficar sozinha.

 

Mesmo fraca, Giulia estendeu a mão trêmula e segurou a da filha.

 

— Niele, minha filha… viver é escolher. Nem sempre escolhemos certo, mas o que não podemos é deixar de escolher. Pior que errar é não viver. Eu não tenho orgulho do que fiz em 1968, mas também não tenho arrependimento. Foi a vida me chamando para não esquecer que eu ainda existia.

 

Niele apertou a mão da mãe, sentindo naquele gesto a força que as palavras carregavam. O quarto, antes pesado, pareceu se encher de um silêncio mais leve, quase cúmplice.

 

Giulia respirou fundo, a voz já arrastada pela doença, mas ainda carregada de firmeza:

 

— Minha filha… escute bem o que vou lhe dizer. O casamento não é prisão, nem medalha, nem sentença. É escolha diária. Se essa escolha já não lhe traz paz, é preciso coragem para encarar a verdade.

 

Niele baixou os olhos, sentindo o peso das palavras.

 

— Mas, mãe… e se eu me arrepender? E se eu destruir tudo o que construí?

 

Giulia acariciou-lhe a mão com carinho.

 

— O maior arrependimento, filha, é deixar a vida passar sem vivê-la. Eu não lhe digo que se separe, nem que permaneça. Apenas digo: escute o que seu coração pede. Porque, no fim, quando a gente está deitada como eu estou agora, não é o que os outros pensaram que importa… é o que deixamos de fazer por medo.

 

As lágrimas corriam livres pelo rosto de Niele.

 

— Eu sempre quis ser forte como a senhora… — murmurou.

 

Um sorriso sereno iluminou o semblante cansado de Giulia.

 

— Você já é, minha filha. Só precisa acreditar. A vida vai lhe cobrar decisões, e eu não estarei mais aqui para segurar sua mão. Mas quero que se lembre: viver é ter coragem de perder para poder ganhar de verdade.

 

Niele encostou a cabeça de leve no ombro da mãe, como quando era menina. O quarto, impregnado de lembranças, parecia envolvê-las num abraço silencioso, quase eterno.

 

Ainda permaneceram algum tempo assim, até que Giulia insistiu:

 

— Vai descansar, filha. Eu já lhe dei o que tinha para dar hoje.

 

Niele beijou-lhe a testa demoradamente, como se quisesse guardar para sempre aquele calor. Depois, com o coração apertado, saiu do hospital e foi para casa.

 

***

 

O dia passou arrastado. Niele tentou distrair-se com pequenas tarefas, mas em cada canto da casa parecia ouvir a voz da mãe, rever gestos, sentir presenças. À noite, exausta, deitou-se e, antes de dormir, recordou a última conversa. As palavras de Giulia ecoavam como um testamento de amor e coragem.

 

Adormeceu entre lágrimas.

 

Por volta da meia-noite, o celular vibrou sobre o criado-mudo. Niele despertou sobressaltada, o coração já pressentindo o que a mente se recusava a aceitar. Atendeu com a voz trêmula:

 

— Alô…

 

Do outro lado, uma voz conhecida, delicada e firme, anunciou:

 

— Niele… sinto muito. Sua mãe nos deixou.

 

O silêncio que se seguiu foi pesado, absoluto. O telefone escorregou de suas mãos. Niele ficou imóvel, olhando para o teto escuro, como se o mundo tivesse parado. Uma mistura de dor e incredulidade tomou-lhe o peito.

 

Naquele instante, compreendeu que a última conversa não fora apenas um desabafo, mas uma despedida cuidadosamente escolhida. Giulia partira em paz, deixando-lhe não apenas a saudade, mas a coragem de viver.

 

 

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 22/09/2025
Alterado em 24/09/2025
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