Estranha Forma de Amar
O amor, esse sentimento tão celebrado e tão temido, assume formas que escapam às definições. Há quem o viva como prisão, há quem o experimente como liberdade. Há quem se sinta sufocado, e quem se reconheça inteiro apenas no gesto de partilhar.
Certa tarde, em conversa despretensiosa, um amigo confidenciou-me seu cansaço. Falava da esposa como quem descreve um fardo. “Ela não me dá trégua”, dizia, “vive ordenando: faça isso, faça aquilo. E o pior é quando insiste que eu prometi algo que jamais saiu da minha boca. Cria diálogos inteiros na cabeça e depois me cobra como se fossem promessas quebradas. Quando tento argumentar, responde apenas: ‘Tá, tá, tá...’. Casei, meu amigo, com uma metralhadora.”
Rimos, é verdade, porque o exagero sempre tem sua graça. Mas a risada não apagou a pergunta que ficou ressoando: até que ponto o excesso de zelo pode se tornar opressão?
Dias depois, em visita a uma amiga que para mim é quase uma mãe, ouvi relato em tudo contrário. Entre o cheiro do café recém-passado e o rumor distante da rua, ela me contou sobre Julieta, conhecida em comum. Julieta, segundo ela, vive para o marido, Naithan, de quem parece inseparável.
— Outro dia fomos juntas ao shopping — disse minha amiga. — Depois das compras, paramos para tomar café. Entramos na Cacau Show e eu lhe ofereci uma trufa. Para minha surpresa, em vez de comer ali mesmo, ela guardou o doce e disse: “Vou levar para dividir com minha cara-metade”.
Minha amiga, descrente, protestou: “Mas é só uma trufa! Pegue outra para ele”. Julieta sorriu, mas manteve o gesto. Para ela, não havia sentido em saborear sozinha o pequeno chocolate.
— Gostar é normal — concluiu minha amiga —, mas aquilo me pareceu demais. Fui casada dez anos, e nunca senti esse tipo de afinidade.
Fiquei em silêncio. Entre os relatos tão distintos, nasceu em mim a dúvida: como pode o amor, no convívio íntimo, se mostrar sufocante, e, nos pequenos gestos, revelar-se tão delicado?
Talvez seja essa a natureza do amor: contraditória, inesperada, difícil de medir. Não se trata de certo ou errado, de mais ou menos. O amor é múltiplo, e cada casal inventa a sua própria forma. Às vezes, estranha. Outras, sublime.
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Grato nobre mestre RickSteindorfer, por tua valorosa interação a este humilde texto.
À Estranha Forma de Amar
Teu verbo é espelho,
reflete o amor em seu avesso.
Mostra que o sentir não tem molde,
nem medida, nem endereço.
Entre o riso e o café passado,
tu costuras o cotidiano.
E no gesto de guardar uma trufa,
há mais verdade que no plano humano.
O amor, esse bicho sem nome,
às vezes grita, às vezes cala.
Pode vir como metralhadora,
ou como trégua que embala.
Tu não julgas, tu observas,
com olhos de quem já amou.
E deixas que o leitor descubra
o que nele também ecoou.
Teu texto é abraço sem toque,
é pergunta que não quer resposta.
É poesia disfarçada de prosa,
que no peito se encosta.