FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


 

 

Estranha Forma de Amar

 

O amor, esse sentimento tão celebrado e tão temido, assume formas que escapam às definições. Há quem o viva como prisão, há quem o experimente como liberdade. Há quem se sinta sufocado, e quem se reconheça inteiro apenas no gesto de partilhar.

 

Certa tarde, em conversa despretensiosa, um amigo confidenciou-me seu cansaço. Falava da esposa como quem descreve um fardo. “Ela não me dá trégua”, dizia, “vive ordenando: faça isso, faça aquilo. E o pior é quando insiste que eu prometi algo que jamais saiu da minha boca. Cria diálogos inteiros na cabeça e depois me cobra como se fossem promessas quebradas. Quando tento argumentar, responde apenas: ‘Tá, tá, tá...’. Casei, meu amigo, com uma metralhadora.”

 

Rimos, é verdade, porque o exagero sempre tem sua graça. Mas a risada não apagou a pergunta que ficou ressoando: até que ponto o excesso de zelo pode se tornar opressão?

 

Dias depois, em visita a uma amiga que para mim é quase uma mãe, ouvi relato em tudo contrário. Entre o cheiro do café recém-passado e o rumor distante da rua, ela me contou sobre Julieta, conhecida em comum. Julieta, segundo ela, vive para o marido, Naithan, de quem parece inseparável.

 

— Outro dia fomos juntas ao shopping — disse minha amiga. — Depois das compras, paramos para tomar café. Entramos na Cacau Show e eu lhe ofereci uma trufa. Para minha surpresa, em vez de comer ali mesmo, ela guardou o doce e disse: “Vou levar para dividir com minha cara-metade”.

 

Minha amiga, descrente, protestou: “Mas é só uma trufa! Pegue outra para ele”. Julieta sorriu, mas manteve o gesto. Para ela, não havia sentido em saborear sozinha o pequeno chocolate.

 

— Gostar é normal — concluiu minha amiga —, mas aquilo me pareceu demais. Fui casada dez anos, e nunca senti esse tipo de afinidade.

 

Fiquei em silêncio. Entre os relatos tão distintos, nasceu em mim a dúvida: como pode o amor, no convívio íntimo, se mostrar sufocante, e, nos pequenos gestos, revelar-se tão delicado?

 

Talvez seja essa a natureza do amor: contraditória, inesperada, difícil de medir. Não se trata de certo ou errado, de mais ou menos. O amor é múltiplo, e cada casal inventa a sua própria forma. Às vezes, estranha. Outras, sublime.

 

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Grato nobre mestre RickSteindorfer, por tua valorosa interação a este humilde texto.

 

À Estranha Forma de Amar 

 

Teu verbo é espelho,

reflete o amor em seu avesso.

Mostra que o sentir não tem molde,

nem medida, nem endereço.

 

Entre o riso e o café passado,

tu costuras o cotidiano. 

E no gesto de guardar uma trufa,

há mais verdade que no plano humano. 

 

O amor, esse bicho sem nome,

às vezes grita, às vezes cala.

Pode vir como metralhadora, 

ou como trégua que embala. 

 

Tu não julgas, tu observas,

com olhos de quem já amou.

E deixas que o leitor descubra 

o que nele também ecoou. 

 

Teu texto é abraço sem toque,

é pergunta que não quer resposta.

É poesia disfarçada de prosa,

que no peito se encosta.

 

 

 

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 03/09/2025
Alterado em 08/09/2025
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