FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


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Os dias que se seguiram foram de convalescença. Plínio passava do quarto ao escritório, do escritório à varanda, sem poder montar a cavalo por conta do braço enfaixado.

 

A segurança na fazenda fora redobrada desde o atentado. Já se ia dezembro de 1899: mais um ano chegava ao fim — na verdade, um século inteiro se findava para dar lugar a um novo.

 

Plínio estava à varanda, contemplando a beleza do vale que circundava a Fazenda Barro Preto. Naquela década sofrera muitas perdas: primeiro a mãe, depois o pai, e agora ele próprio quase perdera a vida. Se a bala daquele do louco Jacob tivesse atingido o lado esquerdo, na mesma altura, não estaria ali para contar. Enquanto se deixava levar por tais reflexões, Demétrius surgiu na varanda.

 

— Tudo bem, meu senhor? — perguntou o velho capataz.

 

— Bom dia, Demétrius. Quero pedir-te um favor.

 

— Peça, patrão.

 

— Antes de eu levar o tiro, disse-te que o considero como um segundo pai, recorda-te?

 

— Claro que me lembro.

 

— Pois então... já é hora de deixares de me chamar de “senhor” ou “patrão”. Nenhuma dessas formalidades. Afinal, me conheces desde que eu era bebê, me viste crescer; cuidaste de mim por toda a vida; salvaste-me no dia do atentado e ainda enviaste aquele biltre para o outro mundo. A partir de hoje, chama-me apenas de Plínio.

 

— Está bem, meu se... — começou Demétrius, interrompido pelo olhar firme de Plínio.

 

— Perdão... Plínio. Obrigado por este gesto de liberdade para com este velho.

 

— É o mínimo que posso fazer. Agora, venha cá e dê-me um abraço, meu velho, meu pai, meu amigo... meu salvador.

 

Abraçaram-se demoradamente.

 

— Demétrius — prosseguiu Plínio —, o século está no fim. Sofri muitas perdas nestes anos, e eu mesmo estive entre a vida e a morte. Quero encerrar este século com festejos. A partir do dia vinte e quatro, darei folga a todos os trabalhadores. Faremos uma grande festança. Convide todos os sócios e parceiros da Fazenda Barro Preto. Mande abater dois bois gordos e envie-os à vila dos trabalhadores. Desde o dia vinte e quatro até o dia dois do ano vindouro, haverá comemoração. Só o curral não poderá cessar, pois é mister tirar o leite das vacas e fazer os queijos. E, claro, dê-lhes uma gratificação extra pelo serviço neste período.

 

— Assim será, meu filho... — respondeu Demétrius.

 

Plínio sentiu um calor no peito ao ouvir, depois de tanto tempo, alguém chamá-lo de “meu filho”.

 

***

 

A notícia espalhou-se célere pelos quatro cantos da fazenda. Trabalhadores e suas famílias, ao ouvirem falar em bois gordos, música e folga, acorreram à vila com um brilho nos olhos que há muito não se via.

 

Na cozinha grande, Dona Firmina já dava ordens às ajudantes. As mesas pesadas eram esfregadas até brilhar, os tachos de cobre e panelas de ferro postos em ordem, e sacas de mantimentos trazidas do armazém. O cheiro do alho socado misturava-se ao das ervas secas penduradas no beiral, prenunciando banquete.

 

Na vila, homens erguiam um rancho coberto de palha para servir de salão, enquanto mulheres costuravam bandeirolas de pano colorido. Crianças corriam entre as pernas dos adultos, rindo e trazendo um sopro de leveza ao ambiente.

 

Plínio, da varanda, via tudo com orgulho e melancolia. Orgulho pela vida que pulsava ali. Melancolia pelas ausências que o destino lhe impusera.

 

43

 

A noite de 24 de dezembro chegou com céu limpo e estrelas cintilantes. O cheiro da carne nos espetos misturava-se ao perfume da canjica e dos bolos de fubá. No rancho, mesas fartas exibiam farofa de toucinho, feijão tropeiro, arroz soltinho e pedaços generosos de carne cortados por Demétrius.

 

Os sócios chegaram montados em bons animais, famílias em carroagem, as mulheres com vestidos de festa, e as crianças de olhos arregalados diante das luzes da casa-grande. A música começou tímida, mas logo tomou o terreiro com fandangos e modas de viola.

 

Plínio, de casaco bem abotoado, chamou todos ao centro e ergueu a voz:

 

— Este é o último Natal deste século. Muitos passamos por dias difíceis, mas estamos aqui, vivos e juntos. Que esta noite seja lembrada como a noite em que a Fazenda Barro Preto se tornou uma só família.

 

O brinde foi feito com copos simples, mas o gesto era grandioso. Riram, dançaram e cantaram até tarde.

 

***

 

Na noite de 31 de dezembro, o terreiro estava ainda mais iluminado. Fogos tímidos começavam a estourar ao longe. Margareth, em cetim azul, trazia Edgar ao colo, vestido de branco. O pintor contratado armou seu cavalete diante da escadaria.

 

Plínio, erguendo a voz, anunciou:

 

— Quero que esta noite seja lembrada não apenas por nós, mas por aqueles que virão depois.

 

Chamou Margareth para junto de si e acomodou Edgar no braço bom. Sua irmã juntamente com o esposo, ficou ao lado de Margareth. Demétrius ficou do lado de Plinio. Ao fundo, a varanda iluminada e o terreiro tomado de gente. No instante em que a última badalada da meia-noite soou, um clarão iluminou o vale, e o pintor captou o abraço, o filho protegido, e a fazenda ao fundo.

 

— Que este novo século nos encontre assim... juntos. Sempre — murmurou Plínio.

 

Fim

 

 

 

 

Agradecimentos

 

Primeiramente, agradeço a Deus, Criador e detentor de todo saber, sem cuja luz e orientação minhas palavras jamais teriam coragem de existir.

 

A minha esposa, minha companheira e porto seguro, agradeço pela paciência e compreensão nas ocasiões em que minhas atenções se perdem em devaneios e pensamentos literários. Seu amor e sua presença silenciosa são forças que sustentam minha jornada.

 

À professora Mariazinha, minha eterna mentora desde 1996, que descanse em paz... expresso minha mais profunda gratidão. Mulher de fibra, dotada de notável erudição — mestre no francês, espanhol e inglês, e advogada exímia —, cuja honestidade e rigor acadêmico me ensinaram o valor da excelência. Nunca se omitiu em dizer-me, com firmeza e bondade: “Este texto não está bom; você pode fazer melhor.”

 

Recordo com clareza de quando vetou meu primeiro romance, Em Busca de Uma Nova Era. Ao ler o manuscrito em 2010, declarou: “Ainda não está pronto.” Engavetei-o por três anos, para só então lançá-lo, em 2013, ainda sob o protesto amoroso de minha querida professora. Hoje, reconheço que, sem seu olhar crítico e exigente, talvez Entre a Vida e a Morte jamais tivesse sido escrito.

 

À professora Mariazinha, devo não apenas gratidão, mas também a lembrança constante de que o caminho da criação literária é feito de disciplina, coragem e amor à palavra.

 

Agradeço, de coração, a você, leitor recantista. Sem perceber, cada comentário seu — seja elogio ou crítica construtiva — tornou-se um ensinamento e um estímulo para minha escrita. Não mencionarei nomes, para não correr o risco de deixar alguém de fora, mas saiba que cada palavra sua ecoa na minha inspiração.

 

Espero, em breve, dar vida física a este conto, para que ele possa alcançar ainda mais corações. Até a próxima aventura, que nos levará a novas histórias, novos mundos e novas emoções.

 

 

 

 

 

 

Projetos futuros

 

Meu mais novo projeto se chama: NO DIVÃ

 

Um conto/romance intenso, psicológico e realista.

 

Uma enfermeira entre a rotina exaustiva do pronto-socorro e o colapso de um casamento.

 

Uma crise sanitária.

Uma contaminação proposital.

E o amor da sua vida… entre a vida e a morte.

 

Uma história sobre coragem, dor, escolhas — e sobre como cuidar dos outros sem se perder de si mesma.

 

Estou revisando o texto. Em breve... Estarei compartilhando com vocês .

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Felipe Felix
Enviado por Felipe Felix em 23/08/2025
Alterado em 23/08/2025
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