FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


 

 

40

 

Margareth estava no quarto; ao perceber a movimentação incomum na fazenda, deixou Edgar aos cuidados da criada e desceu às pressas para ver o que se passava.

 

Na sala, deparou-se com o marido estendido sobre o divã, o rosto pálido, enquanto Demétrius lhe pressionava o lado direito do peito com um pano já manchado de sangue.

 

— Meu Deus! — exclamou, levando as mãos ao rosto. — O que aconteceu? Quem fez isso?

 

Demétrius ergueu o olhar, a expressão grave.

 

— Ele foi baleado, senhora. Tentaram matá-lo… Não posso afirmar com certeza quem foi, mas tenho minhas suspeitas. Creio que tenha sido Jacob. Foi dispensado há seis anos e nunca se conformou com a forma como saiu da fazenda.

 

— Jacob… — murmurou Margareth, como se o nome lhe trouxesse más lembranças.

 

— Mas só teremos certeza quando os peões o encontrarem — completou Demétrius, voltando a atenção para o ferimento, o semblante fechado como pedra.

 

Margareth estava prestes a fazer outra pergunta quando Demétrius, percebendo o desespero no rosto da senhora, falou com voz firme:

 

— Já mandei um dos peões buscar o Dr. Ladislau na cidade. Ele há de chegar o quanto antes.

 

***

 

O tempo, entretanto, parecia não se mover. Naquelas três horas que se seguiram, a sala da casa-grande se tornou um reduto de silêncio e ansiedade, quebrado apenas pelo estalar da lenha na lareira e pela respiração irregular de Plínio.

 

Margareth não arredou pé de junto do marido. Segurava-lhe a mão, murmurando palavras que só ele podia ouvir. Por vezes, um tremor lhe percorria o corpo quando o via se agitar, franzir o cenho ou soltar um gemido abafado.

 

Demétrius, de pé, mantinha o pano pressionado contra o ferimento, trocando-o sempre que o sangue voltava a empapar o tecido. Seus olhos, porém, não se fixavam apenas no patrão — de tempos em tempos, desviavam-se para a porta, atento a qualquer sinal de cascos no terreiro.

 

Do lado de fora, a movimentação era constante. Peões iam e vinham, trazendo notícias desencontradas da busca pela mata. Alguns afirmavam ter visto pegadas próximas ao córrego; outros, que ouviram passos apressados na direção da estrada velha. Ninguém, contudo, encontrara o suspeito.

 

Quando finalmente o som de um galope rápido ecoou ao longe, Margareth ergueu a cabeça como se despertasse de um transe. O coração acelerou-se-lhe no peito. Minutos depois, o Dr. Ladislau entrou pela porta, ainda com o suor da viagem colando-lhe a camisa ao corpo.

 

— Afastem-se — ordenou, sem preâmbulos, abrindo sua maleta de couro. — Quero espaço para examiná-lo.

 

Demétrius recuou, cedendo lugar. Ladislau retirou o pano já encharcado e observou o ferimento.

 

— A bala pegou de raspão, mas entrou o suficiente para provocar um sangramento perigoso. Se tivéssemos demorado mais, poderia ser tarde demais.

 

Margareth, aflita, aproximou-se.

 

— Ele vai sobreviver, doutor?

 

— Sobreviverá, senhora — respondeu Ladislau, enquanto iniciava o curativo. — Mas precisará de repouso absoluto. A febre pode vir nas próximas horas, e é preciso vigiá-lo sem descanso.

 

Demétrius, ainda de pé, manteve o semblante grave.

 

— Quando o senhor terminar, temos de conversar. Tenho minhas suspeitas sobre quem puxou esse gatilho.

 

Ladislau assentiu, sem desviar o foco de seu trabalho.

 

— Primeiro, salvemos o homem. Depois, vamos atrás do assassino.

 

***

 

Quando terminou o curativo, o doutor Ladislau limpou as mãos numa toalha de linho e fez um discreto aceno para que Demétrius o acompanhasse até a varanda. Do lado de fora, a brisa morna da tarde trazia o perfume acre da mata úmida, misturado ao murmúrio longínquo dos peões que varriam os arredores em busca de vestígios.

 

— Dizei-me, senhor Demétrius — principiou o médico, num tom quase confidencial —, de quem suspeitais?

 

O mordomo lançou um olhar cauteloso ao terreiro, certificando-se de que ninguém se aproximava, antes de responder:

 

— De Jacob. Fora administrador da vila dos empregados… até ser dispensado por mim, sob ordens do jovem senhor Plínio, por estar desviando víveres e suprimentos destinados aos trabalhadores, além de lhes infligir maus-tratos. Foi despedido sem um vintém de indenização. Quando o patrãozinho seguiu para a capital, o infeliz veio até aqui, buscando vingança, e foi posto para fora. Creio que, desde então, aguardou a ocasião propícia para se desforrar. Ao saber do retorno do patrão, não duvido que tenha vindo consumar seu intento.

 

Ladislau franziu o cenho.

 

— E julgais que ele guardou rancor por todo esse tempo?

 

— Não tenho dúvida alguma — replicou Demétrius. — Não seria a primeira vez que alguém retorna para ajustar contas antigas. O que me inquieta é que, se de fato foi ele, conhece cada atalho desta fazenda… e pode estar mais próximo do que supomos.

 

O médico quedou-se em silêncio por alguns instantes, acompanhando com o olhar o movimento dos homens armados ao longe.

 

— É prudente reforçar a guarda. Eu mesmo darei parte ao delegado assim que regressar à cidade.

 

Enquanto isso, na sala, Margareth permanecia junto ao marido. Sobre o ferimento repousava um pano limpo, e a respiração de Plínio já se mostrava mais compassada. Com ternura, ela passou os dedos pelos cabelos dele, ajeitando-os como nos tempos de namoro.

 

— Não me deixes… — murmurou, a voz embargada. — Edgar precisa de ti… e eu também.

 

Por um instante, seu olhar se fez duro.

 

— Quem quer que tenha cometido tal afronta… há de pagar. Eu mesma me encarregarei disso.

 

Do lado de fora, passos apressados soaram no assoalho, seguidos de uma porta aberta com ímpeto.

 

— Senhor Demétrius! Doutor! — bradou um dos peões. — Encontramos rastros frescos na trilha da estrada velha!

 

Ladislau e o mordomo trocaram um olhar rápido.

 

— É ele… — murmurou Demétrius, antes de seguir o peão.

 

41

 

O silêncio pesava como um manto. Ladislau sentia o coração bater-lhe nos ouvidos, abafando até o som do próprio passo.

 

De súbito, algo brilhou no chão, a poucos palmos adiante. O peão abaixou-se e recolheu o objeto.

 

— Um botão… — disse, mostrando-lhes o pequeno círculo de metal gasto. — Caiu do casaco dele, aposto.

 

Demétrius estreitou os olhos.

 

— Não caiu… foi deixado.

 

Seguiram mais alguns metros, e então viram, pendurado num galho baixo, um lenço encardido, amarrado de forma descuidada. O tecido, manchado de terra, exalava um leve cheiro de suor rançoso.

 

— Ele quer que saibamos que está perto — murmurou Demétrius. — Está nos guiando… como quem puxa um boi pela corda.

 

Ladislau olhou ao redor. A mata ali era mais densa, o solo irregular. Folhas úmidas grudavam nas botas, e a sombra parecia engolir qualquer vislumbre de luz. Ao longe, um pio de coruja ecoou, grave e arrastado, apesar de ainda ser tarde.

 

De repente, o vento trouxe outra coisa — um riso baixo, rouco, que pareceu vir de todos os lados.

 

O peão empunhou a espingarda.

 

— Eu ouvi…

 

— Eu também… — disse Demétrius, num tom baixo. — E ele quer que ouçamos.

 

Um estalo soou atrás deles. Os três se voltaram, armas prontas. Nada. Apenas folhas caindo lentamente, como se o ar tivesse acabado de ser cortado por algo ou alguém.

 

Ladislau respirou fundo, tentando acalmar a pulsação.

 

— Estamos no terreno dele… e ele sabe.

 

Demétrius apertou o cabo do revólver.

 

— Então que saiba… também não estou de mãos vazias.

 

Um novo estalo ressoou, desta vez à frente. Foi diferente — mais seco, como galho partido sob peso de corpo. O peão ergueu a espingarda, mas Demétrius fez sinal para que todos se abaixassem.

 

Entre as sombras, um vulto se moveu. Era rápido, mas não apressado. O homem parecia saber que estava sendo visto.

 

Então, um clarão súbito rompeu o breu: o estampido de um tiro ecoou, e a bala ricocheteou na casca de uma árvore, arrancando lasca de madeira junto ao rosto de Ladislau.

 

— Cobertura! — gritou o peão, lançando-se atrás de um tronco.

 

Outro tiro veio, desta vez mais próximo. O som indicava que o atirador se posicionava num ponto elevado, talvez sobre uma pedra ou tronco caído. Demétrius respirou fundo, recostou-se contra o abrigo de um angico, e esperou.

 

Silêncio. Apenas o farfalhar leve de folhas acima.

 

Então, no alto de uma clareira estreita, Jacob surgiu. O rosto magro, a barba rala, os olhos faiscando. O rifle erguido, apontando para a direção deles.

 

Demétrius não pensou. Moveu-se com a precisão de quem já aguardava aquele instante. A mão firme, o braço alinhado, o dedo apertando o gatilho.

 

O disparo ecoou como trovão.

 

Jacob estacou. O rifle escapou-lhe das mãos, tombando no chão com um baque surdo. Ele levou os dedos à testa, como se tentasse compreender o que acontecera… e tombou para trás, imóvel, a bala cravada bem entre os olhos.

 

Por alguns segundos, ninguém se moveu. Apenas o cheiro acre da pólvora se espalhava pela mata, misturado ao aroma úmido das folhas.

 

Demétrius guardou o revólver no coldre e, sem mudar o tom de voz, disse:

 

— Ele não vai mais incomodar o patrão.

 

Ladislau assentiu, ainda recuperando o fôlego.

 

— Foi rápido… e limpo.

 

O peão cruzou-se, murmurando uma prece. O corpo jazia ali, em meio às sombras da mata, como se a própria floresta houvesse decidido encerrar a caçada.

 

***

 

A descida da mata foi lenta. O corpo de Jacob, estendido sobre uma padiola improvisada com galhos e lona, balançava ao compasso dos passos. O sol já mergulhava atrás das colinas, tingindo de cobre as copas das árvores e lançando sombras compridas no terreiro da Barro Preto.

 

Quando os homens surgiram pelo portal da propriedade, o murmúrio dos que aguardavam espalhou-se como vento em palha seca. Criadas espiavam pelas frestas das janelas; peões interrompiam o trabalho para seguir com os olhos o cortejo silencioso.

 

Margareth, que permanecia junto de Plínio, ouviu o rumor crescente e levantou-se. Aproximou-se da porta, e, ao ver o grupo, fixou-se no vulto coberto pelo pano grosseiro.

 

— É ele? — perguntou, sem tirar os olhos da padiola.

 

Demétrius retirou o chapéu, mantendo o rosto impassível.

 

— Sim, senhora. Jacob não causará mais dano a esta casa.

 

Por um instante, Margareth não disse palavra. Depois, seu olhar, que antes ardia em fúria, suavizou-se num misto de alívio e exaustão.

 

— Que assim seja…

 

Ladislau entrou, dirigindo-se a Plínio, que ainda repousava.

 

— Pode descansar em paz, senhor. A ameaça foi eliminada.

 

Plínio, pálido, ergueu levemente a cabeça, como se as palavras lhe devolvessem um peso retirado do peito.

 

— Então… acabou.

 

Demétrius, porém, manteve-se sério.

 

— Acabou para ele… mas não para nós. Quem guarda ódio como Jacob raramente anda sozinho. É prudente reforçar a vigilância.

 

O silêncio que se seguiu pesou no ambiente. Do lado de fora, o corpo foi levado para o galpão, onde aguardaria a chegada do delegado e o registro formal do ocorrido. A noite começou a cair, trazendo com ela a primeira estrela, fria e distante — lembrando a todos que, embora a ameaça imediata tivesse sido extinta, a paz ainda era frágil na Barro Preto.

 

 

 

 

 

P.s.: Se você ainda não leu os capítulos 38-39 da série de contos Entre a Vida e a Morte, corra lá e confira!

 

 

 

 

 

 

 

 

Felipe Felix
Enviado por Felipe Felix em 22/08/2025
Alterado em 22/08/2025
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