FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


 

 

38

 

Plínio e Demétrius cavalgavam a passo lento pela fazenda, dirigindo-se à vila dos trabalhadores. O jovem senhor deixava que os olhos corressem pelas vastas plantações, como quem revisita lembranças entranhadas na terra.

 

O caminho levou-os por um trecho de mata cerrada, onde a estrada se tornava íngreme. Ao atingirem o alto, descortinou-se uma clareira imensa, e, além dela, um canavial que se estendia até onde a vista alcançava — um tapete verdejante que ondulava ao sabor do vento.

 

Plínio deteve o cavalo por um instante e inspirou profundamente o ar impregnado de natureza. Havia em seu semblante um misto de nostalgia e reverência.

 

— Como senti falta disso… — murmurou, com um suspiro. — O cheiro da terra, da vegetação florescendo… Há algo de ancestral nesse aroma, algo que nos prende à própria essência da vida.

 

Demétrius, sempre atento, assentiu com um meio sorriso.

 

— Não me espanta, patrãozinho. Quem nasce e cresce no meio desse chão sente o peso da distância como um fardo. O senhor esteve ausente tempo demais… Era natural que a saudade o acometesse.

 

Enquanto conversavam, um beija-flor cortou o ar e pairou diante deles, batendo as asas tão rápido que parecia suspenso no tempo. Num instante, sumiu na folhagem. Plínio, contemplativo, sacudiu levemente as rédeas e retomou a marcha.

 

À medida que desciam a encosta, o aroma adocicado do melaço começou a impregnar o ar — sinal inconfundível de que o engenho se achava próximo.

 

Ao se aproximarem do canavial, Plínio desmontou com a destreza de quem conhecia aquele solo desde menino. Da sela retirou um facão, colheu uma cana robusta, descascou-a com precisão e partiu três gomos, levando um à boca.

 

— Doce como o mel… — comentou, cuspindo o bagaço. — Quer um pedaço, Demétrius?

 

O velho mordomo hesitou.

 

— Meus dentes já não são os de outrora, patrão… Mas, se estiver bem macia, aceito um pedacinho.

 

Plínio partiu um gomo e entregou-lhe. Enquanto Demétrius mastigava lentamente, saboreando o caldo doce, o jovem senhor fixou o olhar no horizonte e, após um silêncio breve, falou:

 

— Demétrius… você sabe que o considero como um segundo pai.

 

O velho funcionário ergueu os olhos, atento à inquietação na voz do patrão. Engoliu o suco e cuspiu a fibra, respondendo com brandura:

 

— Fico lisonjeado com suas palavras, senhor… Mas vá direto ao ponto. O que tanto lhe aflige?

 

Plínio hesitou, como quem pesa as próprias palavras antes de soltá-las.

 

— Você se lembra do cavaleiro que esteve na casa-grande ontem?

 

— Lembro-me perfeitamente. Desde que ele partiu, o senhor traz no semblante a expressão de quem trava batalha interna.

 

Plínio suspirou, desviando o olhar para além dos campos.

 

— Ele trouxe notícias de uma mulher… Uma dama que administra um salão frequentado por cavalheiros, nos arredores da cidade.

 

Demétrius franziu o cenho.

 

— E o que há com essa senhora? Tem alguma queixa contra nossos homens?

 

— Antes fosse… — Plínio meneou a cabeça, esboçando um sorriso amargo. — Você recorda-se da última vez que fui à vila dos trabalhadores? Vi as condições deploráveis em que viviam. No dia seguinte, já na cidade, participei daquela reunião com o pastor Elias. Eu estava… desgostoso. Comigo mesmo, com a vida. Após deixar a casa do pastor, acabei indo ao salão.

 

Demétrius manteve-se calado, mas o olhar denunciava que já pressentia o desfecho da confissão.

 

— E então, patrão?

 

Plínio baixou a voz, quase num sussurro:

 

— Ocorreu o que costuma ocorrer nesses lugares… Eu e ela nos envolvemos. Agora, veio-me dizer que tenho um filho.

 

O mordomo não demonstrou surpresa. Apenas coçou a barba grisalha e inclinou levemente a cabeça.

 

— Bem… se o que busca é compensação financeira, isso se resolve com um acerto.

 

— Não é dinheiro que ela quer, Demétrius. — A voz de Plínio tinha um peso incomum. — Quer apenas que eu cuide do futuro da criança. Afinal, um bordel não é lugar para criar um filho.

 

— Isso é simples. Mande o menino para a cidade grande, arranje-lhe uma governanta, providencie para que tenha um futuro digno.

 

— Já tratei disso. Mas há outro problema… — Plínio passou a mão pelos cabelos, angustiado. — Estou casado. Tenho um filho legítimo com Margareth. E, ainda assim, não posso negar o sangue dessa criança. Mas como dizer isso a minha esposa sem que ela se revolte contra mim?

 

Demétrius permaneceu pensativo por instantes, antes de responder:

 

— Pelo que entendi, essa criança é fruto de um deslize anterior ao seu compromisso definitivo com a senhora Margareth. Não vejo motivo para que ela precise saber. Afinal, o passado não se apaga, mas também não precisa atormentar o presente.

 

Foi então que um estampido seco rasgou o ar. O som da espingarda ecoou pela mata, espantando pássaros que se alçaram em voo. Plínio levou a mão ao peito e tombou, o corpo chocando-se contra o solo com estrondo surdo.

 

Relâmpago, tomado de pânico, empinou-se e disparou mata adentro. O cavalo de Demétrius também se assustou, rodopiando sobre as patas. O velho mordomo agarrou as rédeas com força, lutando para dominá-lo, enquanto o coração lhe martelava no peito e a poeira se erguia ao redor.

 

39

 

Demétrius finalmente conseguiu conter o animal, puxando-lhe o freio com firmeza e murmurando palavras de comando. O suor escorria-lhe pela fronte, não apenas pelo esforço, mas pela súbita consciência do que acabara de ocorrer.

 

Saltou ao chão, correndo até onde Plínio jazia sobre a relva. O jovem senhor estava de lado, o rosto pálido, os olhos semicerrados. Um filete de sangue manchava-lhe o colete à altura do peito.

 

— Meu Deus… — murmurou Demétrius, ajoelhando-se ao lado dele. Com mãos trêmulas, abriu-lhe o casaco e afrouxou a gravata. O sangue, quente e espesso, tingiu-lhe os dedos.

 

— Aguente, patrãozinho… aguente… — disse, a voz embargada.

 

Plínio tentou falar, mas apenas um som rouco escapou-lhe da garganta. O mordomo, olhando em volta, procurou qualquer sinal do atirador. A mata, contudo, permanecia silenciosa, como se o próprio vento houvesse parado para assistir à cena.

 

Um estalo de galho seco, distante, fez com que Demétrius erguesse a cabeça, o coração acelerado. Não podia abandonar o patrão, mas também não podia permitir que o inimigo se aproximasse. Com rapidez, arrancou o lenço do bolso e pressionou o ferimento, mantendo os olhos atentos ao entorno.

 

— Força, senhor… — repetiu, mais para si mesmo que para Plínio. — Ainda não é hora de o Barro Preto perder seu herdeiro.

 

Relâmpago estava fora de vista; o outro cavalo, ainda inquieto, relinchava e batia as patas no chão. Demétrius sabia que precisava agir rápido: ou encontraria socorro, ou carregaria o patrão sozinho até a sede.

 

E, acima de tudo, precisava descobrir quem, e por quê, tentara tirar-lhe a vida.

 

***

 

Demétrius respirou fundo, fechou os olhos por um instante e decidiu. Não haveria tempo para buscar ajuda na vila: cada minuto perdido poderia custar a vida de Plínio.

 

Com esforço, ergueu o patrão, apoiando-o contra o próprio peito. Sentia o peso do jovem senhor e o calor do sangue que lhe encharcava a camisa. Arrastou-o até o cavalo, que ainda relinchava nervoso, e, com a força que o desespero concede, conseguiu acomodá-lo sobre a sela.

 

— Aguente firme… — repetia, como se as palavras fossem um amuleto contra a morte.

 

Montou logo atrás, sustentando Plínio com um braço e guiando o animal com o outro. Esporeou o cavalo, que disparou pela trilha, levantando poeira e folhas secas. O vento lhe batia no rosto, misturando-se ao cheiro metálico do sangue.

 

Ao longe, a silhueta da casa-grande começou a surgir entre as árvores. Os cães, farejando a aproximação, soltaram latidos frenéticos. Criados e trabalhadores correram para o pátio, arregalando os olhos ao verem o patrão tombado na sela.

 

— Abram caminho! — bradou Demétrius, saltando com Plínio nos braços. — Chamem o doutor Ladislau! Agora!

 

Dois peões abriram as portas com violência, e o mordomo entrou apressado, levando o patrão para a sala principal. Deitou-o sobre o divã, mantendo a mão firme sobre o ferimento.

 

— Água fervida! Pano limpo! E tragam também aguardente! — ordenava, a voz carregada de urgência.

 

Enquanto isso, um grupo de homens já se reunia no alpendre. Entre eles, o capataz Jorge, que cerrava o punho e cuspia no chão.

 

— Isso não foi tiro perdido… — rosnou. — Foi coisa de quem sabe o que faz.

 

— Quero todos armados e prontos. — Demétrius surgiu à porta, o rosto duro como pedra. — Vasculhem a mata. Procurem pegadas, restos de pólvora… qualquer sinal. Mas lembrem-se: tragam o miserável vivo. O senhor Plínio precisa olhar nos olhos de quem quis matá-lo.

 

Um silêncio pesado se espalhou pela casa, quebrado apenas pelos passos apressados dos que corriam em busca do médico.

 

Plínio, pálido e febril, tentou abrir os olhos, mas logo tornou a fechá-los. Sua respiração estava fraca.

Demétrius apertou-lhe a mão.

 

— Força, patrãozinho… ainda não é chegada a sua hora.

 

Do lado de fora, o som dos cascos já ecoava, marcando o início da caçada.

 

 

 

 

 

P.s.: Se você ainda não leu o capítulo 37 da série de contos Entre a Vida e a Morte, corra lá e confira!

 

Felipe Felix
Enviado por Felipe Felix em 19/08/2025
Alterado em 19/08/2025
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