FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


37

 

Plínio encontrava-se em êxtase. A revelação de que possuía outro filho o lançara em um turbilhão de emoções conflitantes. A quem recorrer? Com quem partilhar tamanha descoberta? Sentia-se só diante da vastidão desse novo destino que se descortinava.

 

Entrou na carruagem sem proferir uma única palavra ao lacaio. Mergulhado em seus pensamentos, não percebeu a jornada entre a cidade e a fazenda. O tempo e o espaço dissolveram-se na inquietação de sua mente. Quando se deu conta, o lacaio já lhe abria a porta, aguardando que descesse.

 

Com passos mecânicos, Plínio saltou da carruagem e subiu os degraus que levavam ao hall de entrada, mas, em vez de adentrar a casa, deixou-se cair em uma das poltronas de madeira dispostas na varanda. A noite estendia seu manto prateado sobre a paisagem, e a lua, em seu quarto minguante, parecia observá-lo com uma serenidade inatingível.

 

Ali permaneceu, o olhar perdido na vastidão escura do horizonte. Em seu íntimo, despertava um desejo súbito e doloroso: a presença paterna. Se ao menos seu pai estivesse ali, se pudesse, uma vez mais, ouvir seus conselhos... Mas a verdade irrefutável impunha-se com crueldade: estava órfão. Nem pai, nem mãe. Restava-lhe apenas o silêncio da noite e o peso da decisão que precisava tomar.

 

Já passava das duas da manhã quando, finalmente, atravessou o umbral da casa e recolheu-se aos aposentos. O cansaço pesava-lhe sobre os ombros, mas a mente, insubmissa, insistia em percorrer labirintos de reflexões insones. Deitou-se, permitindo que o silêncio da noite o envolvesse, mas o repouso tardou a vencê-lo. Quando, por fim, sucumbiu ao sono, afundou em um esquecimento sem sonhos, do qual apenas emergiu ao som ritmado do mordomo, que, meticuloso, percorria os cômodos, abrindo as janelas para que a brisa matinal dissipasse os vestígios da madrugada.

 

Demétrius adentrou o quarto de hóspedes sem bater à porta, certo de que o aposento estaria vazio. Apenas quando escancarou a janela, permitindo a entrada da luz pálida da manhã, notou a presença de Plínio.

 

— Bom dia, Demétrius. Que horas são? — murmurou Plínio, espreguiçando-se preguiçosamente.

 

O mordomo hesitou por um instante, desconcertado.

 

— Perdão, senhor. São seis e meia. Não imaginava que o quarto estivesse ocupado.

 

— Sem problemas — respondeu Plínio, esfregando os olhos. — Cheguei tarde e não quis arriscar acordar Margareth.

 

Demétrius assentiu, recuando um passo.

 

— Compreendo. Deseja que eu feche as cortinas novamente?

 

— Não, já vou me levantar — concluiu Plínio, soltando um longo suspiro, como se ainda estivesse entre a névoa dos sonhos e o peso da realidade.

 

***

 

Plínio adentrou a sala de jantar e sentou-se à mesa do café. Uma negra esbelta, de aproximadamente um metro e oitenta, veio servi-lo. Ele a observou enquanto ela lhe oferecia o café. Era diferente das serviçais que já haviam trabalhado na casa. Na verdade, muita coisa havia mudado na fazenda desde a última vez que ele estivera ali.

 

— Temos bolo de mandioca e bolo de coalhada — disse ela, apontando para os dois bolos. — O que o senhor vai querer?

 

— Pode ser um pequeno pedaço do bolo de coalhada. Faz muito tempo que não como.

 

Enquanto ela lhe servia a fatia, Margareth adentrou a sala trazendo Edgar no colo.

 

— Bom dia, meu bem — disse ela, sentando-se na cadeira ao lado. — Sabina, você pode providenciar aquele mingau do jeito que você preparou ontem para o Edgar? Mas coloque menos leite desta vez, metade leite e metade água... Acho que pode ter sido o leite que deixou o cocô dele meio mole.

 

— Está bem, minha senhora, já vou preparar.

 

A criada saiu da sala, enquanto Margareth se servia de um pedaço de bolo e um pouco de café.

 

— Seu compromisso demorou ontem. Você chegou agora pela manhã? — perguntou Margareth, levando a xícara à boca.

 

— Sim, demorou um pouco. Cheguei por volta da uma da manhã, mas fiquei um tempo na varanda, pensando na vida. Para não lhe acordar, fui dormir no quarto de hóspedes.

 

— Papai, o senhor pode passear de cavalo comigo? — perguntou Edgar, olhando para Plínio.

 

— Meu filho, papai precisa resolver algumas coisas pela manhã, mas à tarde podemos cavalgar juntos.

 

Depois de terminar o desjejum, Plínio dirigiu-se ao estábulo. Relâmpago estava com a cabeça para fora da baia e, ao vê-lo, relinchou e balançou a cabeça de um lado para o outro, demonstrando felicidade ao ver seu dono.

 

Plínio afagou suavemente a testa do cavalo, deslizando os dedos entre suas orelhas com afeto.

 

— Como tem passado, meu amigo( Estão cuidando bem de você?

 

Relâmpago sacudiu a cabeça, arreganhando os dentes em um gesto que Plínio interpretou como uma afirmação. De fato, o animal exibia uma pelagem lustrosa e bem tratada, e sua compleição estava mais robusta do que antes.

 

Adentrando a baia, Plínio pegou a escova e começou a passar sobre o dorso do equino, sentindo sob as cerdas a musculatura firme do animal. Quando estava prestes a lhe lançar a manta, foi interrompido pela chegada do mordomo e de um jovem tratador.

 

— Senhor Plínio — disse o mordomo, com polidez —, permita que Cosme cuide disso. Ele é o novo responsável pelos cavalos.

 

— O que aconteceu com José Pedro? — perguntou Plínio, franzindo ligeiramente o cenho.

 

— Ah, patrão... Já faz um ano que ele faleceu. Envolveu-se em uma desavença na cidade e saiu em desvantagem... Acabou alvejado por seis tiros.

 

— Que desgraça! Era um homem de boa índole, respeitoso.

 

— Pois é, patrão... Mas exagerou na bebida, e aí aconteceu o pior.

 

— Pronto, senhor — interveio Cosme, após finalizar os preparativos. — O cavalo está pronto para a montaria. Sugiro um pouco de cautela, pois há tempos ele não é montado e pode estar mais arisco do que o habitual.

 

Plínio sorriu de leve, deslizando a mão pelo pescoço do animal.

 

— Não se preocupe, ontem já demos uma volta até o cimemiterio. Relâmpago e eu nos conhecemos desde sempre. Fui o primeiro a montá-lo quando ainda era um potrinho, não é, meu velho?

 

O cavalo relinchou alto, como se confirmasse.

 

— Cosme, prepare também uma montaria para Demétrius. Pretendo cavalgar até a vila dos empregados.

 

— Posso acompanhá-lo, patrão, mas só se formos sem pressa. Minha coluna já não é mais a mesma... — comentou Demétrius, com um sorriso resignado.

 

— Nesse caso, Cosme, escolha para ele o cavalo mais dócil e confiável do estábulo.

 

— Perfeitamente, senhor — respondeu o rapaz, prontificando-se ao serviço.

 

 

P.s.: Se você ainda não leu o capítulo 36 da série de contos Entre a Vida e a Morte, corra lá e confira!

 

 

 

Felipe Felix
Enviado por Felipe Felix em 18/08/2025
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