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O lacaio deteve a carruagem discretamente nos fundos do hotel. O proprietário, cliente habitual da família Rufino, assegurava a discrição necessária, poupando Plínio de qualquer inquietação quanto à confidencialidade do encontro. O quarto 11 situava-se no segundo andar.
Plínio ascendeu os degraus com a placidez de quem já antecipa os desdobramentos de um reencontro adiado pelo tempo. No topo, cruzou o corredor de piso acarpetado, onde o silêncio era apenas quebrado pelo ocasional estalar da madeira sob seus passos. Ao alcançar a porta marcada com o número 11, bateu de leve com os nós dos dedos.
A resposta não tardou. Madame Milu surgiu à soleira, envolta em um robe de seda que deslizava sobre sua pele como um sussurro de luxo e nostalgia.
— Entre, querido — murmurou, esboçando um sorriso que oscilava entre a familiaridade e o mistério.
Plínio transpôs a soleira com a altivez contida de quem não ignora sua própria importância naquela cena. Seu olhar percorreu o ambiente com a minúcia de um avaliador de antiguidades, catalogando detalhes, interpretando subtextos.
— Agradeço-lhe por ter vindo com tamanha presteza. Aceita uma taça de champanhe? Ou, se bem me lembro de suas preferências, talvez um conhaque seja mais adequado?
Milu deslizou até uma pequena mesa de canto, onde repousavam uma garrafa de champanhe, duas taças finamente lapidadas, uma garrafa de conhaque e respectivos cálices. Plínio, de pé, estudava-a em silêncio. Observou o modo como seus gestos preservavam a graça de outrora, enquanto ela servia as bebidas de costas para ele.
— Você não mudou nada — disse, finalmente, em um tom que mesclava apreciação e uma pitada de incredulidade.
Ela voltou-se para ele, segurando delicadamente as taças, contendo dois dedos de conhaque em cada. Seu sorriso era um enigma.
— Bondade sua. Os anos, receio, não têm sido tão generosos comigo. Já você… está vigoroso. Mais forte, mais distinto. O casamento, ao que parece, lhe fez bem.
Ela estendeu-lhe a taça e ergueu a sua para um brinde silencioso. O tilintar do cristal ressoou no quarto, selando um pacto tácito entre passado e presente.
Enquanto degustavam o líquido âmbar, os olhares se encontraram, sustentando uma cumplicidade que o tempo não fora capaz de dissipar.
— Sente-se — indicou ela, apontando a única poltrona do aposento.
Plínio acomodou-se com a elegância de quem está habituado a dominar qualquer espaço. Cruzou as pernas, desabotoou os botões da casaca e, com a taça apoiada sobre o joelho, manteve-se em silêncio, aguardando.
Milu, por sua vez, deslizou até a beira da cama. Fitava o líquido no fundo da taça, como se nele buscasse respostas. Quando enfim falou, sua voz tinha a cadência de uma confissão há muito ensaiada.
— Suponho que deva estar se perguntando por que pedi para vê-lo após seis anos.
Plínio inclinou levemente a cabeça, analisando-a com um misto de curiosidade e cautela.
— Sim, confesso que a urgência de seu chamado despertou minha atenção.
E então, o silêncio instalou-se entre eles, carregado de significados.
— Aprecio sua genuína preocupação… Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que não espero nada de você. Não desejo constrangê-lo diante de sua esposa.
Plínio, sem desviar o olhar, virou o restante do conhaque em um só gole.
— Você está me deixando verdadeiramente inquieto. Acho melhor ser direta, ou temo que meu coração não suportará tanta hesitação.
Milu hesitou, como se as palavras pesassem na língua. Respirou fundo antes de continuar:
— Muito bem. Você se lembra daquela noite no pub? Quando nos rendemos um ao outro?
Plínio soltou um suspiro grave e passou a mão pelos cabelos.
— Definitivamente, precisarei de mais uma dose.
Milu indicou a garrafa com um gesto sutil. Ele se levantou, serviu-se de meia taça de conhaque e tomou um longo gole antes de se recostar novamente.
— Você dizia…
Ela inspirou profundamente, como se estivesse se preparando para cruzar uma fronteira invisível.
— Plínio, você tem um filho. Ele tem cinco anos e sete meses.
O silêncio instalou-se entre os dois como uma névoa densa, carregada de implicações. Plínio não esboçou surpresa, nem indignação imediata. Apenas estendeu o braço, repousou a taça sobre a mesinha e se ergueu. Aproximou-se de Milu com a gravidade de um homem que caminha em direção a um destino irrevogável.
Estendeu-lhe as mãos. Ela, hesitante, aceitou o gesto. Ele a puxou para um abraço firme, porém delicado.
— Um filho… — murmurou, mais para si do que para ela. Então, afastou-se ligeiramente e a encarou nos olhos. — Posso conhecê-lo?
Milu assentiu, mas sua expressão carregava um pesar incontornável.
— Sim, mas isso terá de esperar. Ele está na capital. Quando descobri que estava grávida, sabia que não poderia tê-lo aqui. Disse a todos que estava doente e precisava buscar tratamento. Viajei para a capital e o deixei aos cuidados de uma amiga depois que nasceu.
O olhar de Plínio se obscureceu, carregado de pensamentos não ditos.
— Você me privou disso por quase seis anos inteiros… Por que não me procurou?
Ela soltou um riso breve, carregado de ironia e uma pontada de amargura.
— Você realmente precisa perguntar? Eu... uma cafetina, trazendo no ventre o filho de um dos homens mais ricos da cidade? E pior… noivo da filha do pastor? Plínio, eu sou uma mulher prática. Não me dou ao luxo da ingenuidade.
Ele estreitou os olhos, estudando-a como se tentasse decifrar algo além do óbvio.
— E o que você pensa que eu sou? Um monstro? Um covarde incapaz de assumir um filho porque sua mãe não se encaixa no padrão social?
Ela cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha, como se ponderasse sobre a dimensão de sua ingenuidade.
— Em que mundo você vive, Plínio? Está realmente se ouvindo? Aos olhos de todos, sou apenas uma cafetina. Uma mulher que não merece sequer um resquício de respeito.
Ele fechou os olhos por um breve instante, como se absorvesse o peso daquelas palavras.
— Sim… Você tem razão. Mas isso não altera o essencial: quero conhecer meu filho. Quero garantir que ele tenha tudo o que posso oferecer. Se você permitir, posso providenciar uma casa para vocês, onde quer que deseje, para que tenham uma vida mais confortável.
Milu inclinou levemente a cabeça, analisando-o com um misto de surpresa e admiração contida.
— Você realmente é um homem singular, Plínio Rufino. Sua mente parece pertencer a um tempo que ainda não chegou. É generoso de sua parte.
— Não se trata de generosidade. É simplesmente o que deve ser feito.
Ela ponderou por alguns instantes e, por fim, assentiu.
— Muito bem. Faça o que achar melhor pelo menino. Escreverei para minha amiga, informando-a de sua intenção de conhecê-lo.
Plínio a observou por um instante antes de envolvê-la em um abraço sereno, mas carregado de significados.
Antes de partir, inclinou-se e depositou um beijo suave em sua testa. Então, saiu sem olhar para trás.
Milu permaneceu imóvel, absorvendo o momento. Esperava tudo… exceto a serenidade com que Plínio acolhera a revelação.
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