FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


 35

 

Depois de catorze dias de viagem, entre o sacolejar do trem e o compasso lento da carruagem, o veículo de Plínio, conduzindo sua família, alcançou a Fazenda Barro Preto por volta das duas da tarde. Ao descer, ele fechou os olhos e inspirou profundamente o ar impregnado pelo perfume cítrico das flores de laranjeira, cuja fragrância parecia flutuar por cada recanto daquele ambiente rural. Por um instante, permaneceu imóvel, absorto, até que uma voz familiar, vinda das escadarias da casa-grande, o fez despertar de sua contemplação.

 

— Meu senhor, seja bem-vindo! — exclamou Demétrius, descendo os degraus com agilidade surpreendente para sua idade. — Quanto tempo se passou! É quase inacreditável que já se vão seis anos.

 

Plínio estendeu-lhe a mão, mas logo o envolveu em um abraço afetuoso.

 

— Que prazer revê-lo, Demétrius. Nem imagina a saudade que me acometeu… de você, da fazenda, de tudo isto. Senti sua ausência, especialmente no velório… precisava tanto de seus conselhos.

 

Afastando-se, o mordomo franziu o cenho, a expressão tomada por perplexidade.

 

— Perdão, senhor… velório de quem?

 

— Não receberam minha mensagem? Fiz seguir um mensageiro há cerca de dezassete dias, para informar que meu pai fora sepultado.

 

— Meu Deus… o senhor Rufino faleceu!

 

— Sim, descansou enfim. O sofrimento já lhe era demasiado; sua partida, de certo modo, foi um alívio.

 

— Meus mais profundos sentimentos, patrão.

 

— Agradeço, Demétrius. Contudo, nem tudo é motivo de pesar. Trago comigo meu filho, Edgar, que quero que conheça.

 

Com cuidado, Plínio tomou Edgar nos braços e ofereceu a mão para Margareth descer da carruagem.

 

— Meu filho, este é Demétrius, o homem que cuidou de mim desde que eu era menor do que você. Cumprimente-o, Edgar.

 

O menino observou com curiosidade a barba alva do mordomo, mas encolheu-se timidamente, escondendo o rosto no ombro do pai.

 

— Vamos, meu filho, não seja acanhado…

 

Demétrius sorriu com ternura, aproximou-se e pousou a mão no ombro de Edgar, afagando-o com delicadeza.

 

— Não se preocupe, senhor Plínio. Teremos tempo de sobra para nos conhecermos melhor. Por ora, permitam-me conduzi-los ao interior. Mandarei que a cozinha lhes prepare limonada fresca.

 

— Muito obrigado, Demétrius — respondeu Plínio, esboçando leve sorriso. — Ah, e mais tarde, mande arriar o Relâmpago. Quero revisitar os arredores.

 

— Será feito, senhor.

 

Com um gesto, Demétrius indicou o caminho. Todos seguiram, enquanto o aroma das laranjeiras continuava a dançar ao sabor da brisa, envolvendo o ambiente em serenidade peculiar.

 

 

***

 

Após saborear a refrescante limonada, Plínio dirigiu-se ao estábulo. Relâmpago, seu fiel cavalo, relinchou ao vê-lo, quase como quem expressasse saudade.

 

— Que saudades, meu amigo! — murmurou Plínio, envolvendo o pescoço do animal em abraço caloroso. — Ei, garotão, sentiu minha falta?

 

O cavalo, como se compreendesse, esfregou a cabeça contra o ombro de Plínio e soltou suspiros abafados. Não tardou para que fosse montado e, juntos, seguissem em trote compassado até o cemitério, onde repousavam os restos mortais de sua mãe.

 

Ao chegar, Plínio desmontou com reverência e aproximou-se da lápide. Passou os dedos sobre a pedra fria, como se o toque pudesse restabelecer um vínculo.

 

— Mãe… quanto tempo se passou desde minha última visita. Venho hoje trazer-lhe más notícias: papai faleceu.

 

Fez breve pausa, antes de prosseguir:

 

— Não consegui trazê-lo para cá, mas prometo que levarei seus ossos para que repousem juntos, como sempre foi o desejo de vós ambos.

 

Olhou para o horizonte, tingido pelo pôr do sol.

 

— Sabe aquele sonho de papai, de construir uma mansão na capital? Não viveu para vê-lo realizado, mas cumpri seu desejo. Ele agora descansa na colina além do rio, num lugar de beleza inigualável. Em breve, a senhora também será levada para lá.

 

Baixou o olhar e prosseguiu, a voz embargada:

 

— Casei-me. Tenho um filho chamado Edgar. Já conta três anos.

 

Permaneceu em silêncio por longos minutos, até sentir Relâmpago encostar o focinho em seu ombro, como num gesto de consolo. Plínio afagou-lhe as narinas, agradecendo a silenciosa compreensão do velho amigo.

 

 

***

 

Ao regressar, encontrou Margareth e Edgar recolhidos. A longa viagem de catorze dias, com noites incômodas na carruagem, justificava o cansaço.

 

Plínio seguiu para o escritório, decidido a revisar o livro-caixa da propriedade. Embora confiasse plenamente na diligência de Demétrius, quis percorrer os registros dos últimos seis anos.

 

Não havia lido um terço do primeiro volume quando ouviu batidas discretas à porta.

 

— Com licença, senhor — disse Demétrius, adentrando com postura impecável. — Um cavaleiro solicita audiência com Vossa Senhoria.

 

— Não seria possível resolver a questão em meu nome?

 

— Receio que não, senhor. Ele afirmou ser assunto que exige seu envolvimento direto.

 

— Pois bem, conduza-o até aqui.

 

O visitante entrou com passos medidos, chapéu à mão. Vestia-se com apuro, denunciando posição social elevada.

 

— Boa noite, senhor Plínio. Sou o doutor Freemont, advogado de uma amiga sua. Sei que a hora é descortês, mas fui incumbido de entregar-lhe um convite.

 

Plínio, intrigado, indicou-lhe uma cadeira.

 

— Essa amiga… tem nome?

 

O advogado retirou da casaca um envelope lacrado e entregou-o. Plínio rompeu o selo e leu:

 

 

"Senhor Plínio, peço desculpas por não me dirigir a vós após aquela noite em que visitastes meu estabelecimento. No dia seguinte, vi-o partir para a capital e, não tendo notícias, não me atrevi a importuná-lo. Contudo, há assunto de suma importância que lhe diz respeito e precisa ser tratado pessoalmente. Aguardo-o esta noite no Hotel Colinas, quarto 11. Se prezar pela discrição, poderá entrar pelo pátio dos fundos.

 

Com estima,

 

Milu."

 

Plínio passou a mão pela barba, pensativo.

 

— Muito bem, doutor. Diga à sua cliente que estarei lá.

 

Freemont levantou-se, fez leve reverência e retirou-se.

 

Assim que a porta se fechou, Demétrius reapareceu.

 

— Com licença, meu senhor. O jantar está prestes a ser servido.

 

— Agradeço, Demétrius, mas esta noite não jantarei. Providencie a carruagem; preciso ir à cidade.

 

— Ocorreu algo, senhor?

 

Plínio franziu o cenho, hesitando:

 

— Assim espero que não. Só saberei ao chegar. Avise Margareth de minha saída e diga-lhe que ignoro a hora do retorno.

 

— Assim será feito, meu senhor.

 

Demétrius inclinou-se respeitosamente e retirou-se, deixando no ar o perfume das laranjeiras, que parecia agora mais denso e enigmático, como prenúncio de que a noite traria respostas… ou novos enigmas.

 

 

 

 

P.S.: Se você ainda não leu os capítulos 34 da série de contos ENTRE A VIDA E A MORTE, corra la e confira, quem já leu disseram que és a imperdível .

 

 

 

Felipe Felix
Enviado por Felipe Felix em 13/08/2025
Alterado em 13/08/2025
Copyright © 2025. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras