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Plínio atravessou a noite em vigília inquieta. A morte recente do pai impunha-lhe um vazio sem nome. E, naquele instante, nem mesmo os conselhos prudentes de Demétrio, o velho mordomo, estavam ao alcance, pois este se encontrava imerso nas obrigações da fazenda Barro Preto.
Durante os últimos cinco anos, Plínio assumira o leme dos negócios da família, mas jamais abandonara a esperança de que o pai retomasse o comando. Tal aspiração, no entanto, fora sepultada pelos desígnios implacáveis do destino. Doravante, cabia-lhe, de maneira definitiva, o papel de chefe da casa Rufino.
Exaurido, adormeceu sobre a escrivaninha da biblioteca. Ao longe, o canto de um galo rompeu o silêncio, seguido pelas quatro badaladas do sino da igreja — soaram como hinos de bronze na madrugada. Despertou com os sentidos ainda embotados e, ao erguer os olhos, reconheceu-se no mesmo aposento onde sucumbira ao cansaço.
Levantando-se com esforço, dirigiu-se à cozinha. Lá, os empregados já se encontravam em suas tarefas matutinas. Sobre o fogão, um bule de café liberava um aroma reconfortante. Ao vê-lo entrar, os criados levantaram-se em respeito.
— Não se perturbem por minha causa. Desejo apenas uma xícara de café — disse, contido, porém firme.
Um dos criados logo o atendeu. Plínio sentou-se à mesa reservada aos servos, tomando seu café em silêncio, os pensamentos dispersos na neblina do pesar. Ao terminar, ergueu-se.
— Agradeço pelo café. Providenciem água quente para meu banho.
Após banhar-se e vestir-se com recato, dirigiu-se à igreja, onde se realizava o velório do pai.
Para sua surpresa, a igreja achava-se repleta. Havia poucos assentos vagos, salvo na ala reservada à família — ali, apenas cinco pessoas: um irmão do falecido, sua esposa e os três filhos do casal.
Plínio caminhou pelo corredor central com passos firmes, porém despojados de vaidade. Deteve-se diante da urna funerária e contemplou, em silêncio, o semblante plácido do pai. Apesar da palidez e da fragilidade que o tempo e a doença lhe impuseram, Rufino parecia dormir — um sono profundo e irreversível.
Num gesto quase automático, Plínio ajeitou uma mecha de cabelo sobre a testa do morto. Depois, tomou lugar na primeira fileira, onde permaneceu absorto, recebendo as condolências daqueles que se acercavam.
***
O sepultamento fora marcado para as dez horas. O corpo repousaria na colina que se erguia majestosamente além do lago, aos fundos da mansão que Plínio construíra — obra que simbolizava, mais que herança, um tributo ao pai. Ali também, num porvir incerto, ele pretendia trasladar os restos de sua mãe, sepultada na fazenda Barro Preto, para que ambos, unidos em vida, repousassem lado a lado na eternidade.
Às oito horas, a igreja já se achava repleta. Não havia mais lugares; até as laterais estavam tomadas por fiéis em pé. Às oito e meia, o pastor Elias subiu ao púlpito. Sua presença solene e a voz firme impuseram respeito imediato:
— Bom dia, estimados irmãos. Hoje, reunimo-nos para dar o último adeus ao senhor Plínio Rufino de Medeiros, pai de nosso estimado irmão, Plínio Filho — este que nos agraciou com o dom desta igreja.
O pastor fez uma pausa breve e prosseguiu:
— Nascido em 1848, falecido aos 48 anos. Viúvo há cinco, deixou três filhos: Jurema, Melissa e Plínio, e três netos. Os demais familiares, por distância ou desconhecimento, não puderam vir. Mas nós, seus amigos e companheiros, estamos aqui para lhe render tributo. Convido agora seu filho para partilhar conosco algumas palavras.
Plínio subiu ao púlpito. Apesar da compostura, o luto lhe tingia os traços.
— Falar de meu pai é tarefa hercúlea — começou. — Foi mais que pai: foi amigo. Meu melhor amigo. — Casou-se jovem, aos dezesseis, com minha mãe, que contava apenas catorze. Nunca os vi discutir. Seu amor era feito de silêncio e presença. Quando ela partiu, ele murchou. Ontem, enfim, descansou.
Fez pausa, respirou.
— Do lado paterno, há uma sina de morte precoce. Não sei se herança ou maldição, mas espero ser o primeiro a quebrá-la.
Alguns sorriram, discretamente.
— Mais que isso, importa o que ele nos legou: dignidade, trabalho e amor. Espero ser, um dia, metade do homem que ele foi.
Desceu. A igreja silenciou. O pastor retomou:
— Convido-vos a entoar o cântico número 30 de nossa harpa: “A Ressurreição, uma Certeza”.
A congregação elevou a voz. Em seguida, o pastor orou e anunciou:
— Após breve intervalo, partiremos em cortejo à colina.
***
Às onze horas, o corpo foi descido à cova. Um a um, os presentes lançaram punhados de terra. Findo o rito, restaram apenas Plínio, Margareth e os coveiros.
Plínio permaneceu imóvel, olhando a sepultura. Só após o último punhado de terra, enxugou as lágrimas com um lenço de linho. De mãos dadas com Margareth, desceu a colina em silêncio.
Ao chegar em casa, prepararam-lhe um banho quente. Depois, recolheu-se e dormiu profundamente, sem tocar alimento. Era como se a alma houvesse suspendido as exigências do corpo.
Na manhã seguinte, ao som dos pássaros, caminhou até a janela. Do alto, divisava a colina. E ali tomou uma resolução.
Margareth, despertando, viu-o pensativo.
— Como está, meu amor?
— Melhor. Mas decidi ir à fazenda. Preciso de uns dias. Irás comigo?
— Com prazer. Quando partiremos?
— Hoje, após o almoço.
— Providenciarei tudo.
Margareth compreendia o silêncio como quem conhece o idioma da dor.
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