A residência do pastor Elias situava-se nos fundos da imponente igreja. Ao transpor o extenso complexo de quatro mil metros quadrados, Plínio contemplava, com olhar atento, a harmonia entre os espaços: a igreja majestosa, o salão comunitário — onde, aos domingos, servia-se sopa aos desamparados — e a casa pastoral. Esta última, conquanto desprovida da grandiosidade do templo, exalava uma nobreza discreta. Tratava-se de uma construção de dois pavimentos, composta por duas salas — uma de visitas e outra de jantar —, uma biblioteca, uma cozinha espaçosa, um salão das artes e um pequeno pomar. Mais ao fundo, um estábulo completava o cenário bucólico. No andar superior, dispunham-se cinco dormitórios e um escritório.
Plínio subiu os cinco degraus que levavam à entrada principal e bateu à porta, ritmadamente, por três vezes. Foi atendido por uma mulher de tez escura, cuja postura evidenciava respeito e acolhimento.
— Bom dia, senhora — cumprimentou Plínio, retirando o chapéu com reverência.
— Bom dia, senhor. A quem deseja falar? — respondeu ela, com polidez.
— Gostaria de ver o pastor Elias.
— Pois não. Por obséquio, entre. — A criada afastou-se, dando-lhe passagem. — Vou chamá-lo.
Plínio adentrou o vestíbulo, de proporções equilibradas — quatro metros por quatro — e decoração esmerada: três bancos de madeira entalhada, adornados com almofadas de penas de ganso, compunham o ambiente com singeleza e elegância. Assentou-se no banco mais próximo à entrada e, curvando-se, ocultou o rosto entre as mãos, deixando-se absorver pelos pensamentos.
Alguns minutos se escoaram até que uma voz serena o despertou do devaneio:
— Bom dia, Sr. Plínio. Está tudo bem?
O pastor Elias pousara-lhe suavemente a mão sobre o ombro. Plínio ergueu o rosto como quem retorna de um transe.
— Bom dia, pastor Elias. Perdão, não percebi vossa chegada.
— Não há de que, meu filho. Que o traz aqui, tão de manhã?
Ainda inclinado, Plínio respondeu, com a voz embargada pelo luto:
— Meu pai faleceu esta madrugada.
O pastor acomodou-se a seu lado e, em gesto solidário, manteve a mão sobre seu ombro.
— Meus mais profundos sentimentos. Há algo que eu possa fazer para aliviá-lo neste momento de dor?
— Sim, pastor. Desejo que o velório se realize na igreja. Sei que meu pai era católico não praticante, mas sempre apoiou a fé de minha mãe. Creio que, em espírito, ele consentiria.
O pastor assentiu, gravemente:
— Não se preocupe. Será uma honra acolher o velório em nosso templo. Cuidarei pessoalmente de todos os preparativos.
Plínio ergueu o olhar, visivelmente comovido.
— Agradeço, pastor. Informarei ao hospital, para que providenciem a remoção do corpo.
***
O corpo do patriaca Plínio Rufino foi conduzido à igreja às quatro horas da tarde. Ainda que não fosse residente da cidade, o prestígio de sua família — proprietária do maior entreposto comercial da região — assegurou-lhe a presença de uma multidão de curiosos e solidários. Até o prefeito Bernardo Pinto Monteiro de, foi prestar suas condolências a família. Os demais familiares, impedidos pela distância, não puderam comparecer: viviam a vinte e cinco dias de viagem da capital, jornada que, em clima favorável, podia reduzir-se a quinze. Apesar disso, Plínio, cônscio do dever filial, enviara-lhes missivas comunicando o passamento do patriarca.
Para ele, a perda assumia contornos de tragédia pessoal. Era como se o mundo houvesse desabado sobre seus ombros. Ainda que soubesse, com a razão, que tal desfecho era previsível, alimentava uma esperança pueril de que o pai lograsse recuperar-se. Acalentava o sonho de apresentá-lo à mansão que erguera com tanto zelo — agora, um desejo irrealizado. Durante as visitas ao leito, narrava os progressos da obra com minúcias, buscando no semblante do doente qualquer sinal de contentamento. Por vezes, recebia um tênue sorriso; em outras, apenas o silêncio.
Naquela noite, refugiou-se na biblioteca, munido de um conhaque envelhecido. Desde que assumira os negócios da família, cultivava o hábito de uma dose noturna; mas, naquela ocasião, antes das sete da noite já se encontrava na terceira taça. O silêncio era interrompido apenas pelo crepitar da lareira, até que um toque leve à porta o trouxe de volta à realidade.
— Entre — disse, a voz embargada pelo álcool e pela dor.
Margareth entrou com a suavidade de quem conhece bem os espaços da alma e da casa.
— Meu amor... não irá ao velório?
— Não, querida. Irei amanhã.
— Compreendo. Passarei por lá. Meu pai tenta compor as palavras para a cerimônia. Retorno antes das dez.
— Como quiser. Leve consigo um lacaio. A noite não é segura.
— A igreja é ali adiante, Plínio.
— Ainda assim, Margareth. Previna-se.
Ela se aproximou, beijou-lhe os lábios com ternura e retirou-se sem ruído, fechando a porta com cuidado. O crepitar da lenha retomou seu domínio sobre o ambiente, e Plínio permaneceu ali, imerso em sua dor e reflexões.
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