FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

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II PARTE 

Seis anos se passaram 

 

 

 

31

 

Naquela manhã, Plínio despertou com o espírito jubiloso. Já se iam seis anos desde que dera início à edificação da casa sonhada por seu genitor, a qual, após quatro longos anos de labor incessante, finalmente se achava finda. O mercado prosperava com vigor inaudito, atraindo vendilhões e pequenos negociantes das circunvizinhanças, que ali acorriam para comerciar seus produtos no estabelecimento que o povo, com certa ternura, passara a apelidar de “mercadão”. Nele se encontrava de tudo um pouco: açougue, cereais para o sustento e para a lavoura, além de vasta e bem sortida oferta de géneros hortifrutícolas. O prédio, que levava o nome de Mercado e Distribuidora Fazenda Barro Preto, granjeara merecida fama pela variedade e qualidade de suas mercadorias.

 

Ainda envergando seu roupão de seda azul-marinho, Plínio postava-se à sacada do terceiro pavimento de sua mansão, donde observava os transeuntes que, aqui e ali, transitavam pela rua principal da urbe.

 

Sua morada, altaneira, despontava como a mais imponente da cidade. Com seus seiscentos metros quadrados de área edificada, albergava dezoito aposentos de dormir, além de biblioteca, sala de jogos, salas de visita e jantar, um amplo salão de festas situado no térreo e uma graciosa sala de chá, cuja inclusão fora gentilmente exigida por sua esposa, que via naquele recanto um espaço digno para acolher as amigas em ambiente reservado. Havia ainda estábulos, um formoso jardim e um pequeno lago aos fundos, cuja superfície espelhava o céu como cristalina lâmina.

 

Toda a propriedade perfazia cinco mil e quinhentos metros quadrados. A casa contava com vinte servidores internos — entre criadas, lacaios e uma governanta de trato firme. No exterior, outros dez empregados ocupavam-se das lides: cinco se encarregavam dos cavalos e cinco velavam pelo pomar, pelos jardins e pela horta, donde proviam todas as hortaliças e legumes consumidos à mesa dos Rufinos.

 

Enquanto se comprazia na contemplação de sua cidade e das obras realizadas nos últimos anos, Edgar, seu primogênito, de apenas dois anos e meio, veio a seu encontro, puxando-lhe, com infantil graça, a barra do roupão.

 

— Bom dia, papai. Posso ver a rua também? — inquiriu o menino, de olhos faiscantes.

 

— Pois sim, meu filho — anuiu Plínio, curvando-se para tomá-lo nos braços.

 

Beijou-lhe a face com ternura e apertou-o contra o peito.

 

— Não, papai! — exclamou Edgar, em meio a risos. — Sua barba faz cócegas!

 

— Ah, meu pequeno príncipe! — retrucou o pai, sorrindo. — Vamos nos aprontar para o desjejum.

 

Quando se voltou para o quarto, ainda com o menino ao colo, deparou-se com Margareth, que se achava recostada no umbral da porta que separava a sacada do aposento.

 

— Bom dia para os dois cavalheiros mais encantadores da minha existência — saudou ela, com doçura no olhar.

 

Plínio beijou-lhe os lábios, e juntos encaminharam-se ao tocador, a fim de se prepararem para a refeição matutina.

 

 

***

 

À mesa do café, Plínio achava-se em companhia de Margareth e de Edgar. Naquela manhã, a refeição apresentava-se extraordinariamente farta. Em lugar do habitual mingau de aveia ou dos ovos, trouxera-se à mesa biscoitos amanteigados, brioches, rosquinhas e diversos tipos de pão. Plínio partiu um naco de pão com as mãos e levou-o à boca, mastigando vagarosamente, como quem saboreia iguaria dos deuses.

 

— Notaste algo estranho no pão, meu bem? — perguntou Margareth, fitando-o com um leve franzir de sobrancelhas.

 

— Ao contrário — respondeu ele, sorridente. — Está sublime.

 

— É receita da minha família. Desde menina, o pão era presença constante à mesa do desjejum. Ensinei à cozinheira o modo de prepará-lo para que tivéssemos, aqui, um matinal digno.

 

Plínio provou de tudo com apetite e admiração. Jamais conhecera tal abundância nos dias de sua meninice, e só encontrara coisa semelhante quando se hospedara num hotel no Rio de Janeiro, no ano anterior, em viagem empreendida para adquirir um automóvel — um luxo raro, vindo da França, possuído por pouquíssimos no país.

 

— Ocorreu-me uma ideia — disse ele, mordiscando uma rosca. — Que tal inaugurarmos uma padaria? Não conheço aqui na cidade qualquer casa especializada no fabrico e venda de pães.

 

— Ideia formidável, meu querido. Assim, as famílias poderiam adquirir os pães em vez de cozinhá-los em casa.

 

— Justamente. Hei de amadurecê-la. Talvez possamos instalar tal estabelecimento junto ao mercado.

 

Tomou o último gole de café e ainda meditava sobre o assunto quando a governanta entrou na sala, com ares solenes.

 

— Com licença, senhor — disse ela, apresentando uma bandeja de prata. — Um mensageiro acaba de entregar esta carta.

 

Plínio recebeu o envelope, lançou um olhar ao remetente e sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha: era do hospital onde seu pai se encontrava internado. Rompeu o lacre com ligeira apreensão e leu a breve mensagem:

 

 

 

 

Prezado Senhor Plínio,

Espero que esta missiva o encontre em bom estado.

Sou o Dr. Galileu e rogo que Vossa Senhoria compareça à administração deste hospital com a máxima brevidade.

 

 

 

 

Plínio compreendeu, de pronto, o teor sombrio da notícia. Entregou a carta à governanta, limpou a boca com o guardanapo e ergueu-se, dirigindo-se à saída.

 

— Aconteceu algo, meu amor? — inquiriu Margareth, visivelmente inquieta.

 

— Sim... Preciso ir ao hospital. O médico de meu pai deseja falar-me com urgência.

 

 

32

 

Plínio transpôs os umbrais da Santa Casa de Misericórdia com passos firmes, embora o coração pesasse de presságios. Demandou, sem demora, a sala do diretor. A porta achava-se entreaberta, revelando o doutor Galileu mergulhado em anotações, absorto sobre um volumoso livro de registros.

 

— Bom dia, doutor. Recebi vossa correspondência. Aqui estou.

 

O médico ergueu os olhos, trazendo no semblante a gravidade dos que trazem más novas.

 

— Bom dia, senhor Plínio. Sente-se, por obséquio.

 

Plínio obedeceu. O doutor, esforçando-se por atenuar a tensão do momento, perguntou:

 

— Desejais um copo d’água? Um café, talvez?

 

— Não, agradeço.

 

Houve um breve silêncio. O doutor passou as mãos pelo cabelo e, com visível desconcerto, entrelaçou os dedos sobre a mesa.

 

— Senhor Plínio, serei direto, pois a circunstância o exige. Vosso pai sofreu duas paradas cardíacas esta madrugada, por volta das duas horas. Empreendemos todos os esforços que estavam a nosso alcance, mas infelizmente ele veio a falecer.

 

As palavras reverberaram no espírito de Plínio como trovões em noite tempestuosa. Por alguns momentos, permaneceu silente, imóvel, como se o mundo houvesse perdido consistência. Seus olhos vagaram, perdidos, como quem procura sustento no vazio. Por fim, com voz quase apagada, indagou:

 

— Posso vê-lo?

 

— Sem dúvida, senhor. Queira acompanhar-me.

 

Cruzaram os corredores silenciosos do hospital, os passos marcando a inexorabilidade do destino. Desceram ao subsolo, onde o ar se tornava pesado, impregnado de odores acres, com notas de enxofre. Plínio sentiu os olhos lacrimejarem; instintivamente, retirou um lenço do bolso e cobriu o rosto.

 

Galileu, acostumado àquele ambiente, caminhava com naturalidade. Ao chegarem à porta do necrotério, o doutor abriu-a e fez sinal para que Plínio adentrasse primeiro.

 

— Para os não habituados, o odor é deveras agressivo — comentou ele, com uma serenidade quase científica.

 

Plínio nada respondeu, limitando-se a um aceno.

 

No interior do recinto, repousavam três corpos sobre mesas de metal. O médico inspecionou as etiquetas fixadas aos pés dos defuntos, até deter-se diante do terceiro. Sem pressa, levantou o pano que cobria o rosto do morto.

 

Plínio aproximou-se a custo. Contemplou por breves instantes a fisionomia inerte do pai — olhar vazio, feições afiladas, pele colada aos ossos — e recuou subitamente. Com passo acelerado, deixou o local como quem foge de visão insuportável.

 

O doutor recolocou o lençol sobre o corpo, fechou a porta e seguiu atrás de Plínio. Já de regresso à sala da diretoria, o rapaz deixou-se cair sobre uma cadeira, alquebrado.

 

Galileu serviu-lhe um copo d’água.

 

— Bebei um pouco. Há de vos fazer bem.

 

Plínio aceitou. Após alguns segundos de silêncio, murmurou:

 

— Não compreendo... Há apenas três meses, ele parecia bem. Forte, animado. E agora... tornou-se aquilo. Um espectro.

 

— Compreendo vossa dor — replicou o médico, em tom pesaroso. — Nos últimos dias, seu estado agravou-se de maneira súbita. Recusava-se a alimentar-se. Quando aqui chegou, há seis anos, vinha debilitado, é verdade — mas logrou reerguer-se. De súbito, todavia, entrou em espécie de estado catatônico, em que nem água aceitava. Definhou rapidamente. Fizemos tudo quanto era possível.

 

Fez breve pausa, depois acrescentou:

 

— Agora, mister se faz cuidar das exéquias. O ideal seria realizá-las amanhã.

 

Plínio ergueu os olhos, desejando protestar.

 

— Não poderia ser dentro de cinco dias?

 

— Impossível, senhor. Não dispomos de meios para conservação por tanto tempo. O odor tornar-se-ia insuportável.

 

— Compreendo... Que seja então amanhã pela manhã.

 

— Providenciarei tudo. O velório será onde?

 

— Meu pai dizia-se católico, mas nunca foi devoto. Minha mãe era protestante e ele a acompanhava em tudo. Consultarei o pastor Elias. Se ele consentir, realizaremos a cerimônia na capela da congregação. Mandarei alguém informá-lo.

 

Despediu-se do médico com um firme aperto de mão. Galileu acompanhou-o com o olhar, enquanto Plínio se afastava, com passo vacilante e alma turvada pela dor.

 

P.S.: Se você ainda não leu os capítulos 29-30 da série de contos ENTRE A VIDA E A MORTE, corra la e confira, quem já leu disseram que está imperdível .

 

 

Felipe Felix
Enviado por Felipe Felix em 28/07/2025
Alterado em 29/07/2025
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