FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


29

 

Plínio partiu ao romper da aurora, quando o céu ainda exibia as tonalidades incertas do alvorecer. Na bagagem, trazia não apenas suprimentos para a jornada, mas também o peso de sonhos que não lhe pertenciam — sonhos que pertenciam a seu pai. Alimentava a esperança de que o velho patriarca se reerguesse e, para isso, dedicava-se à construção de uma mansão na capital, um presente que marcaria o renascimento de ambos. Contudo, a edificação de tal símbolo demandaria tempo, talvez dois ou três anos.

 

A manhã avançava quando a comitiva de Plínio — sua carruagem e várias carroças carregadas de mantimentos — passou diante do salão da célebre madame Milu. Postada na sacada do segundo andar, ela parecia observar o mundo com uma altivez que lhe era peculiar. Plínio permitiu-se olhá-la por mais tempo do que seria prudente, até que a distância a transformasse em uma mera lembrança.

 

Milu fora mais do que uma experiência passageira em sua vida; embora fosse apenas a segunda mulher com quem se deitara, algo em seu olhar e em seus gestos o tocara de maneira indelével. A primeira mulher que conhecera na capital despertara nele desejo e curiosidade, mas Milu trouxera algo mais: uma sensação rara, quase inominável. Se não carregasse o estigma de sua profissão, talvez Plínio a visse como digna de um destino mais nobre — pensamento que logo afastava, considerando-o impróprio.

 

Depois de horas de viagem, a comitiva fez uma pausa em um vilarejo de aparência modesta. O ponto de parada era uma taverna rústica, onde viajantes de todas as sortes se reuniam. Ali, uísque barato fluía com abundância, suprimentos eram negociados, e, ocasionalmente, brigas explodiam sob o efeito do álcool. O vilarejo, por sua vez, oferecia apenas o essencial: uma pequena capela, uma venda de secos e molhados e poucas casas dispersas.

 

Plínio entrou na taverna acompanhado por seu lacaio e pelo Dr. Ferreira, advogado da família e conselheiro. Escolheram uma mesa afastada, longe do burburinho central. Não demorou para que uma jovem loira de cabelos desgrenhados viesse atendê-los.

 

— Bonjour, monsieur — saudou ela em francês, com um leve sotaque provinciano. — Que voulez-vous? Nous avons un ragoût de porc et des tartes aux figues séchées.

 

Plínio, que dominava o idioma com elegância, respondeu de pronto:

 

— Bonjour, mademoiselle. Nous voudrions trois bols de ragoût, trois morceaux de tarte, et une bouteille de votre meilleur vin.

 

A jovem fez uma breve reverência antes de desaparecer para organizar o pedido.

 

— Avec votre permission — disse ela suavemente.

 

Logo retornou com tigelas fumegantes de guisado, acompanhadas de fatias rústicas de pão preto. Em vez do vinho solicitado, trouxe uma garrafa de uísque, talvez por limitações do estoque ou descuido do estabelecimento.

 

— J’apporterai les tartes tout de suite — informou com um sorriso tímido, enquanto se afastava novamente.

 

Plínio agradeceu com um gesto polido e um “merci” sussurrado, enquanto observava o ambiente com olhos atentos. Apesar da simplicidade ao redor, sua mente permanecia inquieta, refletindo sobre as nuances de sua jornada e os significados profundos que ela parecia carregar.

 

Concluída a refeição, Plínio e seus acompanhantes retomaram o percurso. A estrada mostrava-se em boas condições, privilégio raro naquela região, sobretudo considerando que há cerca de quinze dias não se via chuva. Tal circunstância era benéfica para os viajantes, uma vez que, em tempos de precipitações, a jornada até a capital frequentemente demandava o dobro do tempo habitual.

 

A noite desceu como um véu silencioso, e os viajantes persistiram na marcha por mais uma hora após o crepúsculo. Era já alta madrugada quando avistaram uma modesta hospedaria. Os cavalos, extenuados, receberam os devidos cuidados: foram escovados e alimentados, enquanto os cocheiros aproveitaram o momento para esticar as pernas nas imediações do estábulo. Plínio e o Dr. Ferreira foram instalados nos últimos dois aposentos disponíveis.

 

Enquanto se descalçava, Plínio foi interrompido por uma leve batida à porta.

 

— Quem é? — indagou, ao abrir.

 

— Peço vossa indulgência, senhor — disse o lacaio da estalagem, em tom respeitoso. — Trouxe água quente para vosso banho.

 

— Muito bem. Pode entrar.

 

Após o revigorante banho quente, Plínio desceu ao salão principal, onde lhe foi servida uma frugal ceia de feijão e linguiça. Retornou ao quarto logo em seguida. Antes de repousar, permitiu-se uma dose de conhaque, que tomou lentamente enquanto refletia sobre o percurso que ainda o aguardava. Pensava no pai e na esperança de que a nova casa — tão majestosa quanto simbólica — servisse de alicerce para uma nova era entre eles. Às primeiras luzes do alvorecer, ele e seus companheiros retomaram a jornada.

 

30

 

Conforme o adágio popular que assevera ser impossível preparar uma omelete sem quebrar alguns ovos, similarmente, as reformas na vila dos trabalhadores da Fazenda Barro Preto avançavam com notável celeridade. O mais auspicioso era o contentamento manifestado pelos operários diante das transformações. Sob o aval de Plínio, Demétrius anunciou que o novo administrador seria Everaldo, um dos vaqueiros mais antigos da fazenda. Todos concordaram com a escolha.

 

Após meticulosa análise das necessidades de cada núcleo familiar, Demétrius estipulou a quantidade de mantimentos destinada a cada um, esclarecendo que, trimestralmente, proceder-se-ia à revisão das contas. Everaldo José da Silveira anuiu a todas as orientações e, sendo oriundo da classe trabalhadora, era previsível que não favorecesse indevidamente seus pares.

 

Ao término de um dia dedicado à supervisão das obras, Demétrius dirigiu-se à casa-grande, onde encontrou Jacob.

 

— Boa tarde, senhor Jacob. Em que posso servi-lo?

 

— Boa tarde só se for para você! — retrucou Jacob, impregnado de insolência. — Quero falar com o patrãozinho. Não é justo o que ele fez comigo e com minha família... expulsar-nos da fazenda dessa maneira.

 

— Quanto à justiça da ação, não posso opinar — replicou Demétrius, enquanto um dos seguranças recém-contratados para a proteção da propriedade se aproximava. — Considere-se afortunado por não ter sido o senhor Plínio pai a lidar com a situação; caso contrário, teria recebido uma severa punição física.

 

— Meus amigos disseram que tenho direitos.

 

— Senhor Jacob, o patrão encontra-se na capital, e limitei-me a cumprir suas instruções. Se acredita possuir algum direito, aguarde seu retorno para tratar do assunto.

 

— E enquanto isso, de que viveremos eu e minha família? De inanição? Desde que fui expulso, ninguém se dispõe a me empregar.

 

— Isso não me compete. Deveria ter ponderado antes de furtar seus próprios colegas.

 

— Seu miserável! — bradou Jacob.

 

Num gesto súbito e furioso, levou a mão à cintura e sacou uma faca.

 

— Vou esventrá-lo aqui mesmo!

 

No instante seguinte, sentiu o frio dos canos de uma espingarda pressionados contra sua nuca.

 

— É melhor largar essa faca — advertiu o segurança, voz firme e baixa.

 

Com os olhos arregalados, Jacob deixou a faca cair ao solo, lentamente.

 

— Agora, desapareça daqui. Se eu o vir novamente nas imediações da fazenda, será alvejado.

 

Jacob saiu em disparada, e o jagunço disparou um tiro para o alto, intensificando ainda mais o pavor do infeliz. O fato rapidamente se espalhou, consolidando a reputação da Fazenda Barro Preto como um local resguardado por homens fortemente armados.

 

P.S.: Se você ainda não leu os capítulos 28 da série de contos ENTRE A VIDA E A MORTE, corra la e confira, quem já leu disseram que és a imperdível

 

 

Felipe Felix
Enviado por Felipe Felix em 24/07/2025
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