A residência do pastor Elias erguia-se, solitária, no seio da vasta campina, muito além do bulício citadino. Quando Plínio transpôs o velho portão de madeira, o crepúsculo já tingia o firmamento de cambiantes matizes de ouro e cinza, e o silêncio do campo só era quebrado pelo estrídulo intermitente dos insetos noturnos.
Tão-logo adentrou a propriedade, o moço percebeu uma disposição insólita: carruagens de linhas elegantes achavam-se perfiladas em torno do pátio, mal iluminadas pelo clarão vacilante das tochas. O relinchar contido dos cavalos, todos bem arreados, e a presença de homens vestidos de fraques denunciavam a excepcionalidade da ocasião.
O mordomo — sujeito grave, de bigodes encerados e porte irretocável — veio recebê-lo e, sem desperdício de palavras, conduziu-o pelos corredores austeros até a biblioteca. Ali, grandes estantes de pau-santo abarrotadas de tomos em pergaminho e couro subiam quase ao teto; o odor de papel antigo misturava-se a um leve travo de conhaque e charuto.
No centro do aposento, dispusera-se uma mesa semi-oval de jacarandá, rodeada por cadeiras, onde cavaleiros conversavam em cochicho. O mordomo acercou-se da porta dupla que separava a antessala do coração da biblioteca e bateu duas vezes, com firmeza estudada.
— Senhor Elias, o senhor Plínio deu entrada — anunciou.
— Excelso! Fazei-o entrar — respondeu, lá de dentro, voz firme que ressoou como comando de maestro.
Os presentes quedaram-se em respeitoso silêncio quando o jovem atravessou o umbral. Sobre a mesa reluzia o âmbar dos cálices de conhaque; as bengalas de castão trabalhado apoiavam-se, displicentes, no tapete persa. Via-se, em cada gesto, a familiaridade daqueles varões com negócios de vulto.
O pastor Elias ergueu-se, posição altiva mas sorriso que roçava a cortesia:
— Mancebo Plínio, é-nos grato tê-lo, outrossim, entre nós. Debatemos, neste transe, a expansão de nossa igreja à capital, e estou convencido de que vossa colaboração será de suma valia.
Plínio, tirando levemente o chapéu em sinal de respeito, replicou com voz serena:
— Reverendo, pesa-me lisonja semelhante, porém não posso furtar-me a certa perplexidade: sempre julguei a igreja semeada na seara do espírito, avessa às lógicas de expansão ou mercancia.
Elias sorriu, qual professor que vai desfazer erro comum.
— Ótima observação, meu jovem, mas incompleta. A missão que o Altíssimo nos confia carece de eficácia terrena: templos erguem-se com pedra e suor, e almas alcançam-se mediante bons ardis de caridade. Para tanto, mister é planejar como qualquer empresa digna de longevidade. Escolhi minha chácara — território neutro — para que pudéssemos tratar da matéria com recato.
Plínio percorreu os convivas com olhos perscrutadores: não eram apenas devotos; ali estavam banqueiros, industriais e potentados cujas fortunas cinzelavam a paisagem da província. A igreja, concluiu, revelava-se palco onde se desenhavam destinos mais vastos.
— E qual seria, pois, o papel que esperais de mim?
— indagou, sustendo o olhar.
O pastor recostou-se, um brilho arguto nos olhos:
— Tendes inteligência viva, rede de relações, ascendência natural. Desejamos que a nova igreja seja tanto púlpito do espírito quanto fulcro de influência social. Carecemos de homens que conjuguem devoção e pragmatismo.
Seguiu-se silêncio eloquente. Então ergueu-se o comendador Emerval, proprietário da fábrica de doces da comarca, alisando o colete de seda bordada:
— É voz corrente, senhor Plínio, que vossa família mantém gleba de um equitério nos arrabaldes da capital. Com Vosso pai em convalescença, suponho que sejais, de facto, o curador dos interesses da casa Rufino.
O pastor inclinou a cabeça, corroborando:
— Anelamos a cessão de parte desse solo para ali edificarmos nossa igreja-matriz. Em retribuição, erguer-se-á casa de socorro aos necessitados — Esta obra de misericórdia receberá o nome de Casa Isabel Rufino, em homenagem à vossa excelsa genitora, senhora já finda deste mundo, que Deus a tenha em sua glória. — e firmaremos contrato de aquisição, por prazo indeterminado, dos gêneros produzidos em vossa fazenda. Não só isso: almejamos propagar templos por todo o território mineiro, o que abrirá novas sendas de comércio. Que dizeis?
Plínio levou a destra ao queixo, pensativo.
— De pronto, não vislumbro vantagem imediata — confessou —; entretanto, no longo prazo, reconheço potencial.
— Exato! — exclamou Elias. — Hoje, pagando aluguel caríssimo em bairro remoto de Belo Horizonte, limitamo-nos. Um templo centralizado captará fiéis, e os lucros reverberarão aos nossos benfeitores.
Emerval aproveitou o embalo:
— Outrossim, grande parte de vossos clientes acham-se entre nossos paroquianos; eles próprios poderiam transportar vossos mantimentos. A linha férrea chega à Vila da Penha — comprometemo-nos com o frete até lá, e daí o trem conduzir-los-á à capital.
As vozes cruzavam-se, tecendo sedutoras promessas, quando o mordomo, com a solenidade de um sacristão em procissão, entreabriu a porta:
— Senhores, se Vos aprouver, o jantar está servido.
E assim, enquanto o aroma de assados e especiarias trescalava pelo corredor, a reunião tomou feição de banquete em que, entre taças erguendo-se em brinde, firmar-se-ia mais do que simples acordo: ali mesmo nasciam alianças capazes de alterar o curso da vida dos ali presente.
Para Plínio, renunciar a uma propriedade era uma questão que exigia ponderação cuidadosa, quase filosófica. Durante o jantar, entretanto, o pastor, para sua sorte, evitou abordar o tema, permitindo que a noite transcorresse em relativa serenidade. A maioria dos convidados aceitou a hospitalidade do anfitrião, permanecendo para pernoitar em sua residência. Plínio, contudo, optou por retornar à própria casa, movido talvez por um desejo de introspecção.
23
Chegou tarde; passava da uma da manhã, e o silêncio reinava absoluto. Todos já dormiam, mas ele, ainda desperto e alerta, buscava um escape à agitação de seus pensamentos. Retirou-se à biblioteca, onde escolheu, quase instintivamente, um volume de Dostoiévski. Embora já tivesse degustado champanhe e vinho do Porto ao longo da noite, sentia-se suficientemente lúcido para apreciar ainda um pouco mais de indulgência.
Dirigiu-se à garrafa de conhaque francês, sempre presente sobre a mesa da biblioteca, herança dos hábitos refinados de seu pai. Serviu-se de três dedos do líquido âmbar e, com o livro em mãos, acomodou-se na poltrona.
Ao abrir o livro, por um momento, nada leu. Ficou a remoer, em silêncio, as palavras ditas pelo pai de Januária:
“— Pois se é assim, trate de ser homem. Não zombe com o destino alheio. Porque o sertão escuta, e a terra, quando ofendida, cobra com juros e sem piedade.”
Plínio meneou a cabeça, como que buscando apartar-se daquele pensamento incômodo. Baixou os olhos à página aberta, mas as letras se embaralhavam à vista, sem préstimo algum. A advertência, lançada como maldição, parecia reverberar pelas paredes da casa, infiltrar-se no barro do assoalho e no ar espesso da noite.
Fechou o volume com vagar, tal qual quem sela um segredo ou encerra um remorso. Do lado de fora, o sertão se fazia sentir — não apenas nos ruídos que trazia o vento, mas no murmúrio antigo da terra, que tudo observa, tudo escuta, e cobra no tempo devido. Por fim, retomou a leitura.
As páginas deslizavam entre seus dedos com uma regularidade quase mecânica, enquanto o aroma amadeirado do conhaque preenchia o ambiente. Inicialmente, Plínio não compreendia a insistência de seu pai em adquirir livros durante suas viagens, mas a cada linha lida, a revelação surgia com clareza crescente: os livros eram passaportes para universos outros, capazes de transportar a alma a realidades longínquas, mesmo que o corpo permanecesse imóvel.
Na narrativa, encontrou ecos de si mesmo: um jovem que se aventurava na cidade grande, enfrentando adversidades intransigentes, mas seduzido pela vivacidade das paisagens urbanas, pelos personagens que cruzavam seu caminho e pelos pequenos dramas cotidianos que davam textura à existência. Era como se o autor, com suas descrições meticulosas e densas, tocasse em alguma fibra íntima de sua própria experiência.
A leitura e o conhaque, juntos, criaram uma atmosfera de íntima comunhão entre mente e espírito, até que, sem perceber, Plínio adormeceu. O livro, ainda aberto em suas mãos, parecia guardar os fragmentos de um sonho inacabado.
***
Demétrius, como era de costume todas as manhãs, cruzava a ala social da casa com o olhar atento e meticuloso, verificando se tudo estava em perfeita ordem: janelas abertas para renovar o ar, lustres apagados para evitar desperdícios, e cada objeto em seu devido lugar. Contudo, ao passar pela biblioteca, percebeu que a porta estava entreaberta, algo incomum para aquele ambiente reservado.
Curioso, inclinou-se discretamente, espiando pelo vão. Lá dentro, o jovem Plínio jazia debruçado sobre a mesa, a mão pousada sobre um livro aberto, enquanto, à sua frente, repousava uma taça com dois dedos de conhaque intocado.
Movendo-se com cautela para não perturbar o repouso de seu patrão, Demétrius abriu a porta com um gesto lento e silencioso. Contudo, ao tentar remover o volume de sob a mão de Plínio, o jovem despertou com um sobressalto, mas sem perder a compostura.
— Bom dia, meu senhor — começou Demétrius, com um leve tom de repreensão paternal. — Não vai me dizer que teve outra noite de excessos?
Plínio ergueu a cabeça, piscando algumas vezes para ajustar a visão.
— Bom dia, Demétrius. Nada disso, longe disso. Cheguei tarde, é verdade, e, sem sono, servi-me de três dedos de conhaque. Mas, ao me perder neste livro, acabei por negligenciar a bebida.
— Compreendo. Confesso que imaginei que tivesse passado a noite na casa do pastor Elias.
Plínio soltou um suspiro e ajeitou os cabelos desalinhados.
— Não, precisei me afastar do pastor Elias.
— Algo aconteceu entre o senhor e ele? Não me diga que ele tocou no assunto de suas intenções com a senhorita Margareth.
Plínio arqueou uma sobrancelha, surpreso.
— Intenções? Que conversa é essa, Demétrius?
Demétrius, ciente de que talvez tivesse falado mais do que deveria, hesitou antes de continuar:
— Bem, senhor, na cidade não se fala de outra coisa. Estão até comentando sobre um possível noivado.
— Que absurdo! — exclamou Plínio, recostando-se na cadeira com uma expressão de incredulidade. — Conversamos umas duas vezes, e foi na igreja e em suas dependências.
— Pois dizem que o senhor foi até a casa do pastor pedir a mão da moça.
— Isso é um disparate completo!
Demétrius ergueu as mãos, indicando neutralidade.
— Entendido, senhor. Não mencionarei mais o assunto. Deseja algo especial para o desjejum?
— O que quer que a cozinha tenha preparado será suficiente.
Demétrius fez uma reverência quase imperceptível e retirou-se, mas suas reflexões não cessaram. Enquanto atravessava os corredores para dirigir-se à cozinha, ponderava sobre a tensão que havia captado nas palavras de Plínio. Não era incomum que jovens de espírito inquieto e alma sensível se vissem enredados nas malhas invisíveis das expectativas alheias.
Por sua vez, na solidão da biblioteca, Plínio fechou o livro com um movimento decidido. Seus dedos roçaram a taça de conhaque, mas ele sequer considerou levá-la aos lábios. Os rumores eram, sem dúvida, um empecilho — mas havia algo mais. Algo indefinível que o fazia hesitar. Este algo tinha nome, Januária.
A manhã avançava, ainda tranquila, mas impregnada de uma sensação de iminência, como se sob a superfície da rotina repousasse o prenúncio de uma mudança inexorável.
***
Plínio dirigiu-se ao banheiro, jogou água no rosto e, após várias goladas de água seguidas de gargarejos, penteou os cabelos com cuidado. Dirigiu-se à sala de jantar para o desjejum.
Naquela manhã, a cozinha estava meticulosamente preparada. Tia Mercedes, como sempre bem vestida, se refestelava nas iguarias matinais. Sobre a mesa, repousavam cuscuz com queijo, banana-da-terra frita na manteiga de garrafa, leite, café e brioches, solicitados por sua tia.
A serviçal daquela manhã era Januária, que, com a atenção que lhe era característica, serviu um pedaço de cuscuz e duas bandas de banana para Plínio. Ele iniciou a refeição enquanto ela lhe oferecia uma xícara de café fumegante. Após mastigar o cuscuz que preenchia sua boca, Plínio tomou um gole do café, permitindo que o líquido auxiliasse o alimento a descer pela garganta. Entre levar a xícara aos lábios e devolvê-la à mesa, ele ficou pensativo por um breve momento.
Ao perceber a súbita pausa do patrão, Demétrius interveio com a solicitude habitual.
- Está tudo bem, senhor? Algo de errado com o café?
- Não, tudo está em ordem... Apenas estou refletindo sobre a conversa que tive com o pastor Elias e seus associados.
— Ao que tudo indica, e conforme se escuta a boca miúda, não tarda teremos um casório — disse tua Mercedes, com um sorrisinho de canto de boca, enquanto ajeitava a xícara no pires com mãos trêmulas de velha sabida.
Januária enrubesceu de súbito, levou o lenço à boca e, tomada por um acesso de tosse, ergueu-se com presteza.
— Com licença... — murmurou, já saindo em passos apressados, como quem buscava o ar ou o silêncio.
- Trata-se de algo com o qual eu possa ajudá-lo, senhor? – interveio Demétrius.
- Sem dúvida. Ele solicitou que eu disponibilizasse parte de um terreno que possuímos na capital, um terreno nas proximidades da cidade.
- Ele pretende comprar o terreno ou solicitou uma doação para a igreja?
- Ele pediu que eu doasse uma parte para a igreja, mas, sendo sincero, essa é uma decisão que cabe ao meu pai. Pelo que sei, o sonho dele sempre foi construir uma casa e um armazém naquele terreno, a fim de centralizar nossos produtos lá.
- Compreendo sua preocupação. No entanto, acredito que seu pai, se estivesse vivo, provavelmente tomaria a decisão de doar com boa vontade. Porém, a responsabilidade pela escolha agora recai sobre o senhor, patrão.
- De fato, a proposta do pastor Elias é interessante. Ele pretende montar um centro de apoio a pessoas carentes e afirmou que dará ao local o nome de minha mãe e, que todos os produtos utilizados no centro seriam adquiridos da família Rufino, por tempo indeterminado. Dependendo da dimensão da construção, talvez precisemos até contratar mais operários na olaria.
- Parece que, sob essas condições, um prazo mais longo representa um excelente negócio.
P.S.: Se você ainda não leu o capítulo 21 da série de contos Entre a Vida e a Morte, corra lá e confira! Quem já leu, disse que está impecável.