FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Meu Diário
09/10/2026 10h32
CASTELO DOS DESEJOS - Segredos da Avenida Brasil

PRÓLOGO

A mulher à porta

Governador Valadares, 1989

 

 

Durante trinta anos, as luzes do Castelo dos Desejos jamais haviam sido acesas numa segunda-feira. Naquela noite, porém, todas estavam. O letreiro vermelho sobre a fachada da Avenida Brasil piscava lentamente, como se também houvesse envelhecido.

 

CASTELO DOS DESEJOS

 

Algumas letras já não tinham o brilho de antes. O vermelho intenso dos primeiros anos tornara-se opaco, cansado, quase triste.

 

Filomena estava sozinha no grande salão. Pelo menos era o que parecia. As cadeiras permaneciam sobre as mesas, o bar estava fechado e o palco vazio. Nenhuma música saía das caixas de som. Nenhuma mulher descia as escadas usando vestido curto, perfume forte e sorriso treinado. Segunda-feira era dia de descanso. Sempre fora. Uma das poucas regras que Filomena jamais permitira que fosse quebrada. Mas naquela noite ela quebrara a própria regra.

 

Sobre uma mesa próxima ao palco havia apenas uma garrafa de conhaque, dois copos e um cinzeiro. Filomena serviu uma dose. Nao bebeu. Olhou o relógio na parede. Onze e cinquenta e três.

 

— Você sempre gostou de fazer os outros esperarem — murmurou.

 

Aos sessenta e sete anos, Filomena de Almeida ainda carregava algo da mulher que havia dominado aquele lugar durante três décadas. Os cabelos, agora grisalhos, estavam presos num coque impecável. Vestia preto. Um colar de pérolas envolvia-lhe o pescoço, e nos dedos permaneciam os mesmos anéis grandes que muitos homens de Governador Valadares aprenderam a temer.

 

Os anos haviam desenhado marcas no rosto, mas não haviam diminuído sua presença. Filomena nunca precisara levantar a voz para ser obedecida. Sabia que poder de verdade não fazia barulho.

 

O telefone sobre o balcão tocou. Ela olhou para ele. Deixou tocar três vezes, por fim atendeu.

 

— Castelo dos Desejos.

 

Silêncio… Filomena estreitou os olhos.

 

— Se ligou para respirar no meu ouvido, escolheu a noite errada.

 

Uma voz masculina surgiu do outro lado.

 

— A senhora deveria ir embora enquanto ainda pode.

 

Filomena sorriu.

 

— Demorou trinta anos para criar coragem e ainda precisa telefonar escondido?

 

A respiração cessou.

 

— Não sabe com quem está falando.

 

— Meu filho, passei a vida inteira sabendo exatamente com quem estava falando.

 

Desligou.

 

O relógio marcou onze e cinquenta e oito. Do lado de fora, um automóvel passou devagar pela Avenida Brasil. Filomena levou o copo aos lábios. Dessa vez ela bebeu.

 

Atrás do balcão existia uma pequena porta que poucos clientes conheciam. Ela conduzia ao escritório particular de Filomena. Ali, dentro de um cofre embutido na parede, estavam guardados trinta anos de uma cidade. Cartas, fotografias, promissórias, recibos, bilhetes, nomes, datas e segredos.

 

E um grosso caderno de capa preta que Filomena chamava simplesmente de:

 

Livro dos Desejos. Nenhum nome estava ali por acaso. Homens haviam construído fortunas. Outros haviam chegado à política. Alguns se tornaram empresários respeitados. Havia quem frequentasse igreja aos domingos depois de passar a madrugada de sábado no Castelo. Havia homens que discursavam sobre moral em praça pública e entravam pela porta dos fundos da boate quando a cidade dormia.

 

Filomena conhecia todos. Conhecia esposas, amantes, filhos escondidos, negócios escusos, subornos, traições e crimes. Mas existia uma página daquele caderno que ela não abria havia muitos anos. A página trinta e sete.

 

Filomena voltou ao salão, o relogio marcava onze e cinquenta e nove. Ela pagou o cigarro, e entao ouviu três batidas firmes. A velha porta de madeira parecia ter esperado trinta anos por aquele som. Filomena não demonstrou surpresa, apenas ajeitou o vestido, caminhou pelo salão. Cada passo trouxe consigo alguma lembrança.

 

Madalena rindo atrás do balcão, Zeca preparando uma caipirinha, Rosa dançando descalça depois do expediente, Aureliano entrando com quatro policiais e exigindo dinheiro, Dalva descendo aquela escada pela primeira vez, Dalva chorando, Dalva coberta de sangue, Dalva desaparecendo na madrugada de Ano-Novo.

 

Fhilomena parou diante da porta. Respirou profundamente e a abriu. Durante alguns segundos nenhuma das duas mulheres disse palavra. A visitante estava envelhecida. Os cabelos quase completamente brancos. O rosto marcado. Uma pequena cicatriz cruzava-lhe o lado esquerdo da testa. Mas os olhos eram os mesmos. Filomena reconheceria aqueles olhos mesmo depois de cem anos.

 

— Demorou, Dalva.

 

A mulher olhou para o interior do Castelo, depois para Filomena.

 

— Trinta anos.

 

Filomena abriu mais a porta.

 

— Eu sabia que um dia você voltaria.

 

Dalva não entrou.

 

— Não voltei pelo Castelo.

 

— Eu sei.

 

— Também não voltei por você.

 

Filomena sustentou o olhar.

 

— Sei disso também.

 

Dalva tirou da bolsa uma fotografia antiga e entregou-lhe. Filomena olhou. A fotografia havia sido tirada na noite de 31 de dezembro de 1959. Nela estavam sete homens. Todos jovens, sorridentes, diante da escadaria do Castelo dos Desejos.

 

Filomena conhecia cada um deles. Três estavam mortos. Um havia desaparecido. Dois ainda viviam em Governador Valadares. E o último tinha se tornado um dos homens mais poderosos da região.

 

Dalva apontou para a fotografia.

 

— Eles acharam que eu tinha esquecido.

 

Filomena ergueu os olhos.

 

— E esqueceu?

 

— Uma mulher pode esquecer um homem, Filó. Pode esquecer uma paixão. Pode até esquecer uma humilhação.

 

Dalva respirou fundo.

 

— Mas não esquece a noite em que tentaram matá-la.

 

O relógio do salão marcou meia-noite. Filomena olhou novamente para a fotografia.

 

— Entre.

 

Dalva atravessou a porta. Filomena a fechou. E, pela primeira vez em trinta anos, numa segunda-feira, o Castelo dos Desejos abriu apenas para duas mulheres, e para todos os seus fantasmas.

 

 

 

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Creio que lá pelo fim de Março/ Abriu ... Terei concluindo a escrita desse novo projeto ...

 

Lá para o dia 19/10/2026 começarei postar A ÚLTIMA AUTÓPSIA.

 

 

 

 


Publicado por Felipe Felix Falcão em 09/10/2026 às 10h32
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